Os portões do palácio estalaram antes mesmo de serem abertos.
Um estrondo percorreu o Olimpo. Os deuses sabiam o som — armadura se movendo com intenção, pisadas pesadas, o cheiro de ferro quente antes mesmo do sangue ser derramado.
Ares vinha.
E estava irado.
O céu trovejou sem permissão de Zeus. Nuvens escuras cobriram os corredores dourados. Cada passo que Ares dava fazia as colunas vibrarem, como se o mármore temesse rachaduras. Ele não vinha sozinho — atrás de si, vinham ecos de gritos, visões de guerra, cicatrizes do mundo mortal.
— “Onde está ele?” — rosnou.
Um dos servos divinos tentou responder, mas a simples presença de Ares o calou. O deus passou direto, empurrando a enorme porta do salão principal com os dois braços. A madeira rangia como um navio afundando.
— “Onde está Heron?”
Os deuses presentes se entreolharam. Hera, calada. Apolo, imóvel. Atena, observando — como se antecipasse o confronto.
Mas Ares já sabia a resposta. O silêncio era a confirmação.
Ele girou o machado em mãos. O metal sibilava, impaciente. — “Vocês exaltam bastardos como heróis… e esquecem quem sangrou pelo trono.”
Um raio cortou o céu, desta vez não lançado por Zeus, mas por Ares — puro poder bélico, feito de raiva e orgulho ferido. A chama de Hefesto estalou em resposta, como se se curvasse.
— “Heron não é deus. É um erro com nome.” — avançou até o centro do salão. — “E se Hermes sumiu por causa dele… então é culpa de vocês.”
Ele chutou uma estátua — a de uma deusa menor — e a quebrou como se fosse de barro. O eco soou por todo o Olimpo. Não era apenas raiva. Era provocação.
Ares queria guerra até no próprio céu.
Zeus apareceu, finalmente, em meio a um clarão azul.
— “Controle-se, filho.”
Ares riu.
— “Controle é o que vocês exigem dos fracos. Eu sou Ares. Não fui feito para obedecer.”
Apolo ergueu o arco. Atena se aproximou com a lança pronta.
Mas Ares só abriu os braços, o peito nu riscado por cicatrizes — cada uma, uma guerra vencida. — “Vão me atacar por dizer a verdade? Que Heron não pertence aqui? Que o sangue que some e os deuses que caem estão ligados ao erro de nosso pai?”
Zeus permaneceu em silêncio.
E nesse silêncio, Ares entendeu.
Eles estavam tentando proteger o bastardo. Ignorar o fogo esperando alcançar pólvora.
— “Tudo bem,” — rosnou, recuando um passo. — “Fiquem com seu menino. Cuidem dele como cuidaram do Olimpo… enquanto ele desaba.”
Ares girou o machado, que chiou em brasa. Virou de costas. Caminhou lentamente.
— “Mas quando o sangue correr… e vai correr… não implorem por mim.”
O trovão rugiu mais uma vez. Ares desapareceu em um clarão vermelho, deixando apenas o cheiro de aço e o aviso não dito:
Ele voltaria. Não para avisar. Para destruir.