O céu de Troia ardia em tons de cobre, como se o próprio sol sangrasse sobre as tendas dos guerreiros. O campo estava silencioso por um raro instante — nenhum grito, nenhum estrondo de escudos. Apenas o crepitar da brisa nas tochas e o lamento distante do mar.
Pátroclo estava sentado na beira de uma colina baixa, onde a grama ainda ousava crescer. As mãos sujas seguravam um pequeno frasco de unguento que ele usara mais cedo para tratar os ferimentos dos soldados. Suas unhas tinham vestígios de sangue seco, que ele nem se preocupou em limpar. Já era parte dele agora.
Seus olhos seguiam o movimento dos navios ancorados à beira da praia. Pensava nos homens que dormiam abaixo dos mastros, sonhando com casa, ou não sonhando com nada. Pensava em Aquiles — como sempre pensava. Onde ele estava, o que estava sentindo, por que insistia em guardar a raiva como se fosse escudo.
Pátroclo suspirou.
— “Não nasci pra isso…” — murmurou para o vento, como se ele pudesse levar suas palavras até onde a guerra não alcançasse. — “Mas aqui estou. Por ele. Sempre por ele.”
No colo, descansava sua armadura. A mesma que reluzia ao sol, a mesma que carregava o cheiro da morte. Ele a encarava como quem encara um espelho — e via ali o reflexo de um homem que já foi menino, que já acreditou que ser herói era algo distante, impossível… ou indesejável.
O som de risos ao longe trouxe um calor discreto ao seu peito. Guerreiros ao redor da fogueira, partilhando pão e vinho como se o mundo não estivesse prestes a desabar outra vez.
E Pátroclo sorriu. Pequeno. Quase triste. Quase em paz.
— “Talvez, se eu puder trazer um pouco de luz…” — ele pensou, os olhos fechando por um instante. — “…talvez seja o suficiente.”
O sol mergulhava no mar.
E com ele, mais um pedaço da esperança daqueles homens.
Mas Pátroclo… ele continuava ali. Firme. Não porque era o mais forte. Mas porque era o mais humano.