A lua estava alta, filtrando-se entre as nuvens como um olho atento. A floresta ao redor de Beacon Hills estava silenciosa demais — como se até os animais tivessem aprendido a temer aquela época. Era Quaresma, e mesmo as lendas sabiam o peso desse tempo.
Scott McCall cambaleou entre as árvores, os pés descalços afundando na terra úmida, a respiração pesada se misturando ao ar frio da noite. Os olhos brilhavam em vermelho, intensos, ferozes. As garras haviam crescido antes que ele pudesse evitar. O controle que aprendera com anos de luta agora vacilava — não por raiva, nem por dor, mas por algo mais antigo. Algo espiritual.
A Quaresma carregava mais do que penitência. Trazia histórias, mitos… e uma escuridão diferente. Algo no ar mexia com os instintos do lobisomem dentro dele, como se a própria terra estivesse mais vulnerável. Mais propensa a despertar monstros — inclusive o que ele mantinha enterrado no peito.
Scott cravou os dedos em uma árvore, tentando manter-se consciente, lutando contra a transformação total. Seu rosto já mostrava traços do lobo: mandíbula rígida, presas expostas, pele ardendo. Ele rosnou baixo, os sentidos à flor da pele, a fome por controle mais forte que qualquer outra.
— “Não é isso que eu sou…” — sussurrou, mas a voz saiu rouca, grave, distorcida.
Mesmo naquela forma, mesmo com a maldição pulsando viva no sangue, Scott ainda era o Alfa. Ainda era ele. E mesmo com a Quaresma mexendo com forças ancestrais, ele se ajoelhou no meio da mata, os olhos fechados, os punhos cerrados contra o chão.
Não deixaria a fera vencer. Nem naquela noite. Nem nunca.