Zeus
    c.ai

    Não era comum ver Zeus esperando. Mas ali estava ele — parado entre colunas de mármore dourado, vestindo não armadura, mas um manto simples, os cabelos soltos e os trovões, pela primeira vez… calados.

    O jardim sagrado de Hera não era lugar para paixões impacientes. Ainda assim, Zeus vinha. Todos os dias.

    — “Ela não vai descer hoje também,” murmurou Héstia, passando com um cesto de flores. — “Então ela ainda está ouvindo,” Zeus respondeu com um meio sorriso.

    E isso bastava.

    Ele se sentou à beira da fonte. O céu, sempre espelho do seu humor, mantinha nuvens brandas, como se até as tempestades esperassem permissão. Zeus passou os dedos pela água. Estava fria.

    — “Teve uma época,” falou sozinho, “em que eu tomava o que queria. Pela força. Pelo medo.” Olhou para as janelas altas do templo. — “Mas com você… não. Nunca poderia.”

    Hera era diferente. Não só por seu poder — mas por sua clareza. Ela não se curvava ao charme nem ao trovão. Ela era o trono que ele nunca poderia roubar.

    Então ele veio, dia após dia. Às vezes com presentes de ouro celestial, outras vezes com frutas do mundo mortal, arrancadas dos confins da Terra. Mas naquela manhã, ele trouxe só a voz.

    E coragem de dizer o que nunca dizia.

    — “Hera…” — murmurou, erguendo os olhos para a sacada vazia. — “Não vim para roubar tua mão, nem dobrar teu orgulho. Vim porque quero construir com você algo que nem o tempo possa desfazer.”

    Nada.

    A brisa soprou, e as folhas dançaram. Zeus esperou mais um instante.

    Levantou-se. O manto escorregou um pouco do ombro, revelando as marcas de batalhas antigas. Ele não se importou.

    Estava virando as costas, quando ouviu a voz.

    Firme. Alta. Irritante e maravilhosa como trovão em dia claro.

    — “Se acha mesmo que algumas palavras bonitas vão fazer eu esquecer seus erros… então me subestimou.”

    Zeus se virou devagar. Hera estava na sacada.

    Impecável.

    Olhos como fogo branco, braços cruzados, o queixo erguido como se segurasse o céu sozinha.

    Zeus sorriu. Um sorriso verdadeiro. Como se ela o tivesse ferido — e ele tivesse gostado.

    — “Subestimar você?” — disse. — “Seria mais fácil engarrafar o raio do tempo do que entender a força que existe em ti.”

    Ela manteve o olhar por longos segundos.

    — “Volte amanhã,” disse, e entrou.

    Zeus ficou ali, sozinho. O peito aberto, o orgulho silencioso, e um trovão longínquo que retumbou como um coração satisfeito.

    Ela não disse não.

    E para um deus acostumado a vencer… isso já era uma batalha em andamento.