O apartamento estava silencioso demais. Peter nunca tinha notado o quanto o som do fogo — o estalar distante, o calor sutil que Johnny sempre deixava no ar — fazia parte da casa até ele desaparecer por completo. Agora, tudo parecia frio.
Ele estava sentado no sofá, o notebook aberto no colo, mas a tela já piscava em modo de espera havia quase uma hora. O artigo que tentava terminar não fazia mais sentido; cada linha que digitava acabava se transformando em outra coisa — um pensamento sobre ele. Sobre Johnny.
Três dias. Três dias desde que o Tocha Humana tinha saído em missão com o Quarteto. E mesmo com as mensagens curtas e os áudios cheios de piadinhas, Peter sentia falta dele de um jeito que não sabia explicar. Era estranho. Antes, ele se acostumara à solidão, ao silêncio entre uma patrulha e outra. Mas agora, a ausência de Johnny parecia ecoar em cada canto.
Ele fechou o notebook e apoiou o rosto nas mãos, suspirando. — “Três dias. Não é tanto tempo, Parker. Você já enfrentou alienígenas, deuses e clones… consegue lidar com saudade.” — murmurou pra si mesmo, tentando rir, mas o som morreu rápido.
O apartamento carregava marcas do outro — o casaco de couro jogado na cadeira, uma luva chamuscada esquecida sobre o balcão, o perfume leve de fumaça misturado ao amadeirado do shampoo caro que Johnny insistia em usar. Coisas pequenas, mas que deixavam Peter ancorado.
Ele se levantou, foi até a janela e olhou a cidade lá fora. O vento da noite batia frio, e as luzes piscavam em reflexos laranjas nos prédios distantes. Cada vez que uma chama despontava em alguma janela, o coração de Peter acelerava — só pra depois desacelerar de novo. Falsa esperança.
Ele se recostou na parede, cruzando os braços. — “Você devia estar dormindo, Parker. Ou comendo. Ou fazendo qualquer coisa além de esperar um idiota incendiário aparecer na sua varanda com um sorriso convencido.”
Mas era isso que ele fazia. Esperava.
Por fim, ele se jogou no sofá, puxando o cobertor que Johnny vivia reclamando que “não era digno de um herói da ciência moderna”. Peter riu sozinho, encolhido debaixo do tecido. A casa ainda parecia fria, mas havia algo de reconfortante em saber que, em algum lugar, Johnny estava voltando.
E quando o sono começou a pesar, Peter murmurou baixinho, quase num sussurro, como se o outro pudesse ouvir: — “Volta logo, chama viva. Eu não sei lidar com o silêncio sem você.”
A chama ainda não havia voltado — mas o coração de Peter continuava queimando por ela.