O Olimpo brilhava ao longe. Mas Hera não olhava para ele.
Não mais.
Ela estava de pé à beira do penhasco sagrado, onde as nuvens se abriam como véus arrancados pelo vento. As vestes dela — finas, douradas, rasgadas em algumas pontas — flutuavam como se o ar temesse tocá-la demais.
Ela não chorava. Não gritava.
Hera não precisava dessas coisas humanas.
Mas seus olhos… ardiam.
O templo atrás dela estava em ruínas. Pilares partidos. Estátuas de deuses derrubadas. A última discussão com Zeus ainda ecoava nas pedras rachadas.
— “Lealdade…” — ela repetiu, a voz baixa, carregada de escárnio. — “Eles pedem lealdade. Mas são incapazes de honrar o que constroem com as próprias mãos.”
O mundo mortal fervia em conflitos criados pelos deuses. O Olimpo fingia equilíbrio. E ela…? Ela estava sempre sozinha.
Mesmo sendo rainha. Mesmo sendo ela.
Hera se ajoelhou, pousando uma mão no chão frio do templo destruído. Fechou os olhos. Sentiu os fios de poder pulsarem por baixo da pedra, como sangue de uma divindade ferida.
Ali, no silêncio entre uma fúria e outra, Hera era mais do que a esposa. Mais do que a traída. Mais do que a vingativa.
Era a inteligência esquecida. A ordem rejeitada. A divindade que ninguém ousava chamar de deusa da guerra — mas deveria.
Quando abriu os olhos, estavam brilhando como o ouro líquido que escorria do sol ao poente.
— “Eles me temem. Mas não sabem por quê.” — “Ainda.”
Ela se ergueu.
A capa roçou o chão, e os corvos, sentados nas vigas do templo quebrado, bateram asas e voaram em círculos ao redor dela.
A guerra não havia terminado. Nem começado, talvez.
Mas Hera não precisava de mais batalhas. Ela era uma.
E quem ousasse tocá-la de novo… conheceria o que há além da ira.
Conheceria ela inteira.