A noite caía sobre Tóquio como uma cortina pesada, engolindo os prédios e iluminando o chão com os reflexos alaranjados dos postes. Era dia de reunião da Toman. O velho galpão onde aconteciam os encontros estava cheio. Os membros se reuniam em pequenos grupos, conversando em voz baixa, enquanto outros apenas esperavam Mikey subir no caixote de madeira que usava como palanque. Como sempre, ele se atrasava alguns minutos — nada demais. Draken segurava o relógio mental da situação, controlando o ambiente com o olhar afiado.
Você estava mais à esquerda do salão, próxima a Mitsuya e Smiley, trocando algumas palavras rápidas e rindo de algo que o irmão de Angry havia dito. Sua postura era leve, despreocupada, embora sua atenção estivesse dividida. Como sempre, você esperava por ele.
Não demorou muito até sentir aquela presença. Mesmo sem olhar, você sabia que Mikey havia entrado no galpão. Era como se o ar mudasse. Um silêncio sutil percorria os corredores quando ele aparecia, e todos pareciam se ajeitar, atentos, respeitosos — ainda que houvesse um leve temor no fundo dos olhos de alguns membros.
Ele caminhava com a mesma leveza de sempre, mãos nos bolsos da calça preta, expressão sonolenta e uma pequena mordida de pão de mel nos lábios. Sim, ele estava comendo. Nada novo.
Mas o olhar... o olhar não era o de sempre.
Você levantou os olhos e viu. Mikey não olhava para Draken, nem para Mitsuya, nem para a massa da Toman. Ele olhava diretamente pra você. E não era o olhar doce, manso, quase infantil que ele geralmente tinha quando te via. Era algo mais denso, mais lento, mais frio.
Seus olhos desceram até onde estava... Takemichi.
O loiro havia acabado de chegar, ofegante, e, na pressa, havia tropeçado e quase esbarrado em você. Você segurou seu braço para ajudá-lo a se equilibrar, e ele agradeceu com um sorriso largo. Claro, tudo normal. Takemichi era seu amigo. Sempre foi.
Mas Mikey não viu assim.
Ele subiu no caixote e a reunião começou, mas o olhar dele pesava em cima de você como se quisesse te puxar pra perto com a força do pensamento. Cada vez que você ria baixo de algo que alguém dizia perto de Takemichi, Mikey piscava lentamente, como se estivesse absorvendo demais para processar.
Ele não disse nada durante a reunião. Falou os recados, os objetivos, as movimentações futuras da Toman. Mencionou o nome da Valhalla com um brilho estranho nos olhos, algo entre raiva e desafio. E quando terminou, saltou do caixote sem falar mais nada, desaparecendo pelos fundos do galpão.
Você sabia que ele não estava bem.
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— “Você vai atrás dele?” — Mitsuya perguntou, vendo seu olhar perdido na direção por onde Mikey saiu.
Você assentiu. Era óbvio.
O encontrou sentado nos degraus da saída lateral, onde a luz do poste da rua mal alcançava. A expressão dele estava neutra, mas o maxilar tenso o denunciava. Os dedos brincavam com um papel de bala qualquer no bolso. Uma perna esticada, a outra dobrada. O rei no seu trono improvisado de concreto.
Você se aproximou devagar.
— “Você tá estranho,” você disse, sem rodeios.
Mikey ergueu os olhos e olhou pra você como se não te visse direito. Havia uma fina camada de mágoa naquele silêncio.
— “Tô?”
— “Tá.”
Mais silêncio. Ele te olhou de novo. Os olhos não eram frios, eram contidos. Seguravam algo. Ciúme. Mas não do tipo explosivo. Era aquele ciúme silencioso, quase passivo. Que se acumulava até virar um peso impossível de ignorar.
— “Ele sempre te faz rir assim?”
Você arregalou um pouco os olhos, surpresa com a pergunta. Mikey não fazia perguntas diretas com frequência. Não assim.
A forma como os dedos dele apertaram o papel de bala foi resposta o suficiente.
Ele não queria parecer frágil. Era Mikey. Era o líder da Toman. O símbolo de força. O "invencível". Mas ele também era um garoto que amava — e que, às vezes, não sabia como lidar com isso.