O ar não cheirava a sangue.
Não havia correntes.
Não havia o som de esfolar ecoando nas paredes.
Theon Greyjoy abriu os olhos de repente — e viu pedra limpa. Tapeçarias intactas. O eco distante de risadas no pátio.
Winterfell.
Inteira.
Viva.
Ele cambaleou para trás, a respiração falhando no peito. Levou as mãos ao próprio corpo como se esperasse encontrar mutilações, cicatrizes abertas, dor constante.
Nada.
Inteiro.
— Não… — a palavra saiu rouca, incrédula.
Então ouviu.
Uma gargalhada familiar ecoando pelo corredor.
Robb.
Theon disparou.
Os passos dele batiam contra a pedra em ritmo descompassado, quase escorregando nas curvas dos corredores que conhecia de cor — e que, ainda assim, agora pareciam irreais. Servos o olhavam confusos enquanto ele passava como um fantasma fora de controle.
Ele não parava para explicar.
Não parava para respirar.
Cada porta que atravessava era um golpe de memória: o salão intacto, a luz entrando pelas janelas, o cheiro de pão fresco vindo das cozinhas.
Tudo que ele destruiu.
— “Robb!” — a voz quebrou no nome.
Desespero puro.
Ele virou outra esquina, quase colidindo com um escudeiro. O coração batia tão forte que doía. Como se o corpo não soubesse processar esperança.
Ele chegou ao pátio.
E lá estava.
De pé. Vivo. Rindo.
Perfeito.
Theon parou abruptamente.
As pernas falharam.
Ele caiu de joelhos na pedra fria, o ar escapando em soluço violento antes mesmo que percebesse que estava chorando.
Não lágrimas silenciosas.
Mas aquelas que vêm rasgando.
Ele não ousava se aproximar ainda. Tinha medo de que qualquer toque quebrasse a ilusão. Medo de que fosse castigo. Medo de acordar novamente nas masmorras dos Bolton.
O peito dele subia e descia de forma irregular.
— “Eu sinto muito…” — sussurrou, para si mesmo, para o passado, para tudo.
Pela primeira vez, o desespero não era medo da dor.
Era medo de perder aquilo outra vez.
E ele não sabia se merecia sequer estar ali.