O Éden florescia sob sua presença.
O sol tocava gentilmente as folhas das videiras, e a brisa era morna, como se o próprio paraíso respirasse em paz. Lúcifer caminhava em silêncio pelos jardins — seu olhar sereno escondia um turbilhão. Os pássaros pousavam em seus ombros, as flores se abriam em sua passagem, mas nem mesmo a perfeição ao redor distraía sua mente de um único nome: Lilith.
Ela dançava entre os campos mais distantes naquele momento, rindo com os querubins, colhendo frutos como se o mundo sempre tivesse pertencido à doçura dela. Lúcifer a observava de longe, sem se permitir aproximar. Era errado, talvez. Ou apenas imprudente. Mas era inevitável.
Ele se ajoelhou perto de uma fonte e passou a mão pela água límpida, vendo o reflexo dela ao fundo, entre as pétalas que caíam do céu. Seu sorriso involuntário o denunciou.
— “Ela é diferente…” — murmurou para si, olhos semicerrados. — “Ela não pertence só ao Éden. Ela pertence ao próprio destino.”
E por um breve instante, uma sombra de desejo cruzou seu olhar — não carnal, mas puro e desesperadamente humano. Um anjo, apaixonado, mas incapaz de se declarar. Não ainda.
E assim, ele voltou a se erguer, asas reluzindo, postura impecável, guardando para si o sentimento que poderia incendiar até mesmo o céu.