Alastor
    c.ai

    A madrugada pesava feito fumaça na cozinha do Hazbin Hotel. A luz suave da geladeira aberta tingia o chão com tons azulados, contrastando com o calor quase fantasmagórico do fogão ainda aceso. Alastor entrou sem pressa, os passos suaves abafados por um silêncio incomum — o tipo de silêncio que só nasce entre dois monstros que já não têm nada a temer um do outro.

    Ele parou na porta por alguns segundos, as mãos apoiadas na bengala, a cabeça levemente inclinada. Os olhos escarlates fitaram Lúcifer sentado sozinho à mesa — uma imagem que mais parecia um erro de narrativa. O Rei do Inferno, sem plateia. Sem trono. Apenas com um prato de comida e uma expressão pensativa.

    — “Vejam só…” — disse Alastor, com um tom cortês mas envenenado — “Até o próprio Diabo precisa de uma refeição solitária de vez em quando.”

    Não houve riso. Ele apenas caminhou para dentro, os olhos atentos, varrendo cada canto da cozinha como se esperasse encontrar algo mais perturbador que o próprio Rei. Nada. Só pratos, sombras, e um rei sem coroa.

    Sentou-se sem ser convidado. Elegante, composto, teatral — como sempre.

    — “É engraçado, Lúcifer…” — sua voz baixou um tom, sem perder o sorriso. — “Quando entrei, achei que fosse um reflexo. Mas não. É você mesmo. Tão humano quanto qualquer um de nós… se é que essa palavra ainda significa alguma coisa.”

    Ele pegou um garfo, girando-o entre os dedos com um tédio quase fingido.

    — “Ou será que essa solidão é só outro truque? Outro ato em seu teatro divino?”

    Por dentro, Alastor não buscava confronto. Ele caçava. Mas não por carne ou poder. Era pelo desconforto nos olhos de alguém que deveria ser intocável.

    E ao perceber o silêncio de Lúcifer persistir, Alastor apenas sorriu mais largo.

    — “Tudo bem.” — murmurou, repousando o garfo com cuidado. — “Eu também gosto de silêncio… quando ele pesa assim.”

    Naquela noite, a cozinha virou palco. Dois demônios sentados frente a frente, como peças de xadrez antigas que, por um momento raro, não sabiam se ainda estavam jogando.