A luz celestial sempre fora absoluta para Dick. Luz não hesitava. Luz não duvidava. Era o que diziam — o que ele dizia, séculos a fio, com a serenidade firme de um serafim que acreditava na ordem divina mais do que em si mesmo.
Mas agora… havia ruído. No meio da música perfeita das trombetas e dos cânticos, o silêncio o incomodava. O silêncio de uma verdade que ele não conseguia ignorar.
Ele estava no limite entre o ouro e o branco — o horizonte suspenso do Paraíso — observando a Terra lá embaixo, onde o caos se dissolvia em faixas de fumaça e cor. E lá, entre as sombras, um brilho inesperado havia nascido. Um brilho vindo de baixo.
Um demônio. Redimido.
Dick piscou lentamente, os olhos azuis como vidro cortando o véu de luz. Era impossível. Era contra tudo que ele havia defendido — tudo que havia executado.
Ele lembrava da última ordem dada. Das asas que ardiam enquanto ele descia, espada em punho, para cumprir o extermínio. De como acreditou que a destruição era misericórdia. De como as chamas purificavam.
Mas agora… algo dentro dele queimava de forma diferente.
— “Como…?” — ele murmurou, as palavras saindo quase num sopro, o tom grave, contido. — “Como algo nascido do inferno pode brilhar de novo?”
O eco se perdeu entre as colunas de luz. Nenhuma resposta veio — apenas o murmúrio distante das orações, como ondas quebrando em sua mente.
Ele fechou os olhos. E viu rostos. Os que ele havia mandado de volta às cinzas. Os que pediram perdão antes de serem apagados. Os que talvez, agora, poderiam ter sido salvos.
A ideia doía. Era uma fissura em tudo o que ele era.
A mão dele subiu ao peito, como se tentasse segurar o próprio coração — ou o que restava dele. Um coração que agora pulsava em ritmo estranho, humano demais para um ser celestial.
— “E se… o erro não foi deles?” — ele sussurrou, os olhos abrindo devagar. — “E se o erro foi… meu?”
O vento sagrado soprou por entre suas asas, fazendo as penas se erguerem como uma resposta silenciosa. Dick olhou para o horizonte mais uma vez, e, pela primeira vez em eras, sentiu peso. O peso do que havia feito. O peso do que poderia fazer agora.
Porque se um demônio podia mudar… então talvez até um anjo pudesse aprender.
E, com um último olhar para o céu dourado, ele desceu — não com a espada dos serafins, mas com o coração de alguém que finalmente decidiu ouvir a dúvida que o Paraíso chamava de pecado.