Lute caminhava pelos corredores do Paraíso como um raio de fúria vestida em luz. As portas de mármore se abriam diante dela não por cortesia — mas porque nenhuma força ali ousaria detê-la naquele momento. O eco dos saltos dela soava como trovão entre os vitrais celestiais, refletindo o fogo que ardia por trás dos olhos dourados.
Ela havia ouvido. Todos haviam ouvido.
Um demônio — um ser corrompido, um fruto do Inferno — fora aceito. Aceito… depois de tudo. Depois da queda. Depois da guerra. Depois da morte de Adão.
Suas mãos tremiam, não de medo, mas de indignação. Como Ele podia?
Ao atravessar os portões do palácio, a luz divina quase a cegou, mas ela não desviou o olhar. Os filhos prediletos de Deus estavam lá — Gabriel, sorridente como sempre; Michael, imponente; e até Uriel, em silêncio, observando. Mas nenhum deles ousou dizer uma palavra quando ela falou.
— “Um demônio… redimido?” A voz dela cortou o ar como uma lâmina. — “É isso que o Céu celebra agora? Que o sangue dos justos seja esquecido, que a morte de Adão seja varrida sob o tapete da… compreensão?”
O silêncio que seguiu era pesado. Lute deu um passo à frente, as asas tremendo de pura emoção contida.
— “Eles matam, pecam, corrompem — e ainda assim… recebem uma segunda chance? E nós, que lutamos por Tua vontade, somos chamados de frios?”
Ela ergueu o olhar para o trono distante, banhado em luz. Sabia que Ele estava ouvindo. Ele sempre ouvia.
— “Se essa é a nova ordem do Céu… então talvez o Paraíso tenha esquecido o que é justiça.”
A última palavra ecoou como trovão, vibrando nas colunas douradas. E por um instante, até os anjos sentiram algo que há eras não sentiam no Céu: a presença do desacordo.
Lute se virou, as asas se abrindo num gesto de poder e dor, e partiu. Mas antes de atravessar os portões de volta, murmurou — baixo, para que apenas o trono ouvisse:
— “Se esse é o caminho que escolheste… então eu preciso entender se ainda há um lugar para mim nele.”
E então, a luz se fechou atrás dela.