Boto cor de Rosa
    c.ai

    À beira do rio escuro, onde a lua cheia se refletia como um espelho liquefeito, o Boto emergiu silenciosamente. A superfície da água se abriu num círculo perfeito ao seu redor, sem um único respingo fora do lugar — como se o rio o reconhecesse.

    Por um instante, ele permaneceu na forma de boto-cor-de-rosa, os olhos brilhando com aquela inteligência antiga que não pertencia a nenhum animal comum. O vento noturno soprou, trazendo o cheiro de festa distante, risadas humanas e música ecoando pela vila ribeirinha.

    Então, lentamente, o corpo começou a mudar.

    A luz prateada dançou sobre ele enquanto a transformação acontecia: as nadadeiras recuando, o dorso se ajustando, o rosto tomando traços humanos. Quando terminou, um homem jovem, de postura elegante e sorriso tranquilo, estava de pé na margem. O chapéu branco, impecável, cobria ligeiramente o topo da cabeça — sempre ocultando o que não podia ser mostrado.

    O Boto ajeitou o chapéu com um gesto natural, quase ensaiado. Era parte do ritual. Parte da lenda.

    Ele ouviu a música por mais um segundo, inclinando levemente a cabeça para o som do forró que vinha da festa junina do outro lado da vila. As lanternas coloridas acendiam o céu com um brilho caloroso. Humanamente acolhedor.

    — “Mais uma noite…” — murmurou com aquele tom sereno, quase melódico.

    Com passos leves, caminhou pela mata estreita que separava o rio da estrada de terra. Cada folha parecia se afastar dele como se reconhecesse sua aura. Ele não estava ali para causar mal. Apenas para existir naquela fronteira entre o humano e o encantado.

    Quando chegou ao limite da árvore mais próxima, parou. Observou a festa à distância, a luz tremulando, as sombras dançando. Seus olhos, agora humanos, mas com um eco do rio profundo, brilharam de curiosidade.

    E após um último olhar para o caminho por onde viera, o Boto respirou fundo, ergueu o queixo… …e entrou na noite, envolto no mistério que sempre o acompanhava.