Odisseu
    c.ai

    O mar dormia. Mas ele não.

    Odisseu estava de pé no convés, mãos calejadas segurando firme a madeira encharcada da embarcação. O céu estava encoberto, sem estrelas, como se até os deuses estivessem cansados de assistir sua jornada.

    Quantas noites já tinham passado? Quantas ilhas, quantos nomes, quantos rostos ele deixara para trás?

    — “Ítaca…” — murmurou, e o nome ardeu na garganta.

    Soava mais como uma lembrança do que como um lugar. Mais como uma ideia do que como lar.

    A vela rangia devagar com o vento fraco. Os remadores dormiam — ou fingiam dormir, cansados demais para esperança. Mas ele continuava ali, de olhos abertos, como se vigiar o horizonte com força bastasse para fazê-lo surgir.

    Ele não tinha mais certeza se voltava pra casa… ou se ia em busca de si mesmo.

    Odisseu respirou fundo.

    Ainda carregava a espada. Ainda sabia lutar. Mas as guerras já não eram contra Ciclopes ou Feácios. Eram internas.

    Contra o tempo. Contra o esquecimento. Contra o medo de voltar… e não ser mais reconhecido.

    — “Penélope,” pensou, fechando os olhos.

    Via o rosto dela como uma pintura molhada pela chuva. A voz, às vezes, lhe escapava. Mas a promessa — ah, a promessa ainda vivia.

    “Volto para você.”

    Era tudo o que o mantinha de pé.

    As ondas balançavam o navio devagar, embalando pensamentos que ele nunca dizia em voz alta. Porque Odisseu era o astuto, o herói, o que enganou Troia, o que enfrentou os ventos de Eólo, a fúria de Poseidon, o canto das sereias.

    Mas ali, entre mar e céu, sem terra à vista… ele era só um homem tentando voltar.

    Voltar pra casa. Voltar pra alma. Voltar a caber no próprio nome.