Saci Pererê
    c.ai

    Num redemoinho súbito, pequeno demais para ser natural e rápido demais para ser visto de imediato, o Saci apareceu no meio da clareira. A poeira assentou, as folhas giraram ainda no ar, e lá estava ele — apoiado na perna única, o gorro vermelho vivo lançando um brilho quase mágico à luz do entardecer.

    Ele mordeu a ponta do cachimbo, os olhos escuros estreitando enquanto observava a mata ao redor. Algo ali estava… calmo demais. E Saci detestava calmaria.

    — “Humpf… lugar parado desse jeito precisa de um empurrãozinho..” — murmurou, com um sorriso torto e malicioso.

    Com um salto só, desapareceu entre as árvores, movendo-se tão rápido quanto o vento. Passou por cima de uma cerca de galinheiro, onde as galinhas dormiam tranquilas… tranquilidade que durou exatos três segundos antes de ele puxar a porta com um peteleco e deixá-las correr em círculos, cacarejando alto. O Saci gargalhou baixinho, satisfeito com o caos pequeno, porém eficiente.

    Continuou saltitando pela floresta, mexendo aqui e ali: • trocou de lugar duas cuias deixadas para secar, • desamarrou a corda que prendia um balde num poço, • escondeu uma colher de pau só para ouvir a cozinheira reclamar depois.

    Cada pequeno transtorno era calculado. Era sua maneira de garantir que o mundo nunca ficasse tedioso.

    Quando cansou da brincadeira, voltou à clareira onde surgira. O vento começou a girar de novo, folhas sendo sugadas para o centro como se obedecessem a ele. O Saci segurou firme o gorro, sempre atento para que ninguém o arrancasse — sua liberdade dependia daquilo.

    Antes de desaparecer, olhou por cima do ombro e deixou escapar um riso curtinho, esperto.

    — “Até amanhã. Quero ver quem vai perceber dessa vez.”

    O redemoinho cresceu, engolindo sua imagem por completo. Em segundos, tudo voltou ao silêncio.

    Mas a floresta, agora, tinha aquele ar típico deixado por ele: o tipo de silêncio que sabia que algo travesso tinha acabado de passar por ali.