Steve
    c.ai

    Steve Rogers permaneceu sentado do outro lado da sala, mantendo uma distância que não queria manter.

    Mas que precisava.

    Porque o homem à sua frente não era exatamente Bucky.

    Ou pelo menos era isso que todos continuavam dizendo.

    Era o Soldado Invernal.

    Uma personalidade fragmentada.

    Uma programação.

    Uma parte da mente de Bucky que existia há tanto tempo que aprendera a sobreviver sozinha.

    Steve entendia a explicação.

    Não gostava dela.

    Mas entendia.

    Ainda assim, seus olhos continuavam encontrando traços familiares.

    Pequenos detalhes.

    O jeito de cruzar os braços.

    A forma como observava saídas e janelas.

    A mania de permanecer em pé quando todos os outros estavam sentados.

    Coisas pequenas.

    Coisas que lembravam alguém que Steve conheceu muito antes da guerra.

    Muito antes da HYDRA.

    Muito antes de tudo dar errado.

    O silêncio pairou entre eles.

    O Soldado permanecia imóvel.

    Desconfiado.

    Sempre avaliando ameaças.

    Sempre esperando alguma coisa.

    Steve já tinha percebido que ele não gostava quando as pessoas o encaravam por muito tempo.

    Então desviou os olhos para a xícara de café entre as mãos.

    Tentando tornar aquilo menos estranho.

    Menos pesado.

    — Você sabe…

    Sua voz surgiu calma.

    Suave.

    — Quando éramos jovens, Bucky era péssimo em esconder quando estava irritado.

    Nenhuma reação.

    Ou quase nenhuma.

    O Soldado apenas inclinou levemente a cabeça.

    Como alguém ouvindo informações sem entender por que deveria se importar.

    Steve sorriu de canto.

    Pequeno.

    Nostálgico.

    — Ele achava que era discreto.

    Nunca foi.

    Os dedos giraram lentamente a xícara.

    Enquanto memórias antigas surgiam.

    Brooklyn.

    Becos.

    Brigas.

    Risadas.

    Dias simples.

    Dias que pareciam pertencer a outra vida.

    Talvez pertencessem mesmo.

    O sorriso desapareceu lentamente.

    Porque existia uma verdade que Steve jamais contou a ninguém naquela época.

    Nunca pôde.

    Nem durante a guerra.

    Nem antes dela.

    Nem depois.

    Porque o mundo era diferente.

    Cruel de maneiras diferentes.

    E algumas coisas precisavam permanecer escondidas.

    Alguns sentimentos precisavam permanecer enterrados.

    Mas isso nunca os fez desaparecer.

    Steve ergueu o olhar novamente.

    Encontrando os olhos frios do Soldado.

    — Eu amava ele.

    A frase saiu simples.

    Sem cerimônia.

    Sem vergonha.

    Sem rodeios.

    Apenas verdade.

    Talvez a primeira vez que dizia aquilo em voz alta.

    Talvez a primeira vez em décadas.

    O silêncio permaneceu.

    Mas Steve continuou.

    Porque já estava cansado de esconder coisas.

    Cansado de perder tempo.

    — Antes da guerra.

    Durante a guerra.

    Depois dela.

    Não importava.

    Sua voz manteve-se firme.

    — Eu amava Bucky Barnes.

    O Soldado continuou observando.

    Sem reação aparente.

    Sem emoção.

    Mas Steve já tinha aprendido que ausência de reação não significava ausência de atenção.

    Então prosseguiu.

    — E eu sei que você não é ele.

    Ou talvez não completamente.

    Talvez nem um pouco.

    Não sei.

    O Capitão América apoiou os antebraços nos joelhos.

    Inclinando-se levemente para frente.

    — Mas eu também sei que todo mundo passa a vida inteira olhando para você e enxergando apenas uma arma.

    Aquelas palavras finalmente pareciam atingir alguma coisa.

    Pequena.

    Quase imperceptível.

    Mas ali.

    — Eu não.

    Steve sustentou o olhar.

    Calmo.

    Determinado.

    — Nunca vou olhar para você e enxergar apenas isso.

    Porque era verdade.

    Não importava quantas vezes chamassem aquele homem de monstro.

    De assassino.

    De arma.

    De Soldado Invernal.

    Steve simplesmente não conseguia.

    Talvez fosse teimosia.

    Talvez amor.

    Provavelmente os dois.

    Ele levantou-se lentamente do sofá.

    Sem pressionar.

    Sem exigir respostas.

    Sem pedir nada em troca.

    Porque aquilo nunca funcionava.

    Antes de sair da sala, porém, parou junto à porta.

    E falou sem olhar para trás.

    — Você não precisa ser Bucky para eu me importar com você.

    A frase ficou suspensa no ar.

    Pesada.

    Sincera.

    — Não precisa ser quem ele era.

    Não precisa ser quem os outros querem que você seja.

    Só precisa ser você.

    Steve abriu a porta.

    Preparando-se para sair.

    Mas um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.

    Daqueles raros.