Mikael
    c.ai

    A sala da casa de Mikael exalava uma normalidade sufocante. O som da televisão em volume baixo misturava-se ao riso de Isabella, de 5 anos, que brincava com Stella no tapete. Sthefannie, com a mão distraída sobre a barriga ainda plana, olhava o celular, processando a notícia da gravidez com uma indiferença que beirava o choque. Para ela, o mundo ainda girava no mesmo eixo; a ficha do bebê não havia caído, e a tragédia de Mari parecia uma notícia de jornal distante. ​Rafael entrou pela porta com os ombros encolhidos, o casaco úmido do sereno. Ele não era um monstro, apenas um jovem de 21 anos esmagado pela própria imaturidade e pelo medo de responsabilidades que não sabia carregar. "A Mari está ali na rua de baixo", disse ele, a voz saindo mais trêmula do que pretendia. "Teve um acidente feio com os pais dela. Ela está sentada na calçada, chorando. Acho que se machucou." ​O silêncio que se seguiu foi cortante. A mãe de Mikael parou com o prato na mão, os olhos arregalados. Sthefannie apenas levantou as sobrancelhas, murmurando um "Nossa, que pesado", antes de voltar a atenção ao aparelho, como se o cérebro dela estivesse protegendo-a de qualquer emoção forte que pudesse afetar sua nova condição. ​Mas para Mikael, o mundo não apenas parou; ele quebrou. ​Ele estava no canto do sofá, organizando suas fichas de RPG. Ao ouvir o nome de Mari e a palavra 'acidente', o processamento lógico de Mikael entrou em curto-circuito. Ele se levantou de um salto, as fichas voando pelo chão como pétalas de um futuro destruído. ​—"Você a viu?"— a voz de Mikael saiu rouca, uma nota aguda de pânico subindo por sua garganta. —"Você viu ela sangrando e... e veio para casa?" ​Rafael deu um passo para trás, as mãos nos bolsos. —"Cara, eu não sabia o que fazer. Tinha muito sangue, ela estava em choque. Eu não tenho carro, eu... eu só achei melhor avisar vocês primeiro. Eu não tenho essa responsabilidade, Mikael, eu sou só o namorado da sua irmã." ​A lógica de Mikael, sempre tão voltada para a proteção de Mari, transformou-se em uma fúria fria e cortante. Ele caminhou até Rafael, ignorando o desconforto que normalmente sentia ao chegar perto das pessoas. ​—"Não tem responsabilidade?"— Mikael repetiu, as palavras saindo rápidas, atropeladas pelo autismo que, naquele momento, não o travava, mas o impulsionava. —"No RPG, quando um aliado cai, você não corre para a taverna avisar! Você estanca o sangue! Você fica! Ela é minha vida, Rafael. Se ela morrer de infecção ou de medo naquela calçada, a culpa é da sua covardia. Você a deixou no escuro. Você a deixou sozinha!" ​Mikael não esperou resposta. O barulho da televisão, as perguntas da mãe e o choro repentino das irmãs menores começaram a se transformar em um ruído branco insuportável em seus ouvidos. Ele sentia como se estivesse sob a água. ​Ele agarrou seu casaco, mas as mãos tremiam tanto que ele não conseguia fechar o zíper. O desespero físico começou a se manifestar: um tique nervoso no olho e o balançar frenético do corpo. Ele precisava de Mari. O anel solitário que ele deu a ela agora parecia um farol em sua mente, chamando-o através da escuridão. ​—"Mikael, espera! Está escuro, seu pé de meia nem caiu, como você vai ajudar?"— gritou a mãe, tentando segurar seu braço. ​Mikael esquivou-se do toque com uma agilidade instintiva. —"Ela está sozinha. Ninguém ficou com ela. Os pais morreram, mãe!"— o grito dele ecoou pelas paredes, silenciando até Stella. —"O sistema jogou ela fora e o Rafael passou por cima. Eu sou a única regra que resta para ela." ​Ele abriu a porta com tanta força que a maçaneta bateu na parede. O ar frio da noite atingiu seu rosto, mas ele não sentiu o clima. Ele começou a correr. Mikael não era um atleta, e o esforço físico costumava incomodá-lo um pouco, mas seus pés batiam no asfalto em um ritmo obsessivo. Rua de baixo. Rua de baixo. Rua de baixo. ​Enquanto corria, sua mente projetava os piores cenários, rolando 'falhas críticas' em cada esquina. Ele imaginava o corte na coxa dela, a sujeira, o frio. A ideia de Mari sentada no chão, sem ninguém para segurar sua mão ao atravess