Erik
    c.ai

    A sala estava silenciosa, quebrada apenas pelo som distante de um relógio marcando os segundos. O vento frio atravessava as janelas altas, fazendo as cortinas ondularem como espectros. Erik Lehnsherr observava Wanda de longe, sem pressa. Ela estava sentada diante da janela, as mãos entrelaçadas no colo, o olhar perdido entre as nuvens e as memórias.

    Ela era poder em forma humana — caos contido num corpo frágil. E ele sabia disso. Sabia também que, quanto mais poderosa a mente, mais delicado era o ponto de ruptura.

    Erik deu um passo adiante, o som das botas ecoando no chão de pedra. Não falou de imediato; aprendeu há muito tempo que o silêncio, às vezes, pesa mais que qualquer palavra. Wanda ergueu o olhar por um instante, hesitante, os olhos vermelhos não pelo poder, mas pela exaustão. Ele viu nela o mesmo que via no próprio reflexo: o cansaço de quem carrega um mundo inteiro dentro da cabeça.

    — “Você se culpa demais.” — A voz de Erik cortou o ar com calma. Baixa, firme, como uma lâmina fria.

    Wanda desviou o olhar, mas ele notou o pequeno movimento dos dedos — uma oscilação involuntária da energia que dormia sob a pele dela. Ele sorriu discretamente. A culpa era o caminho. Sempre fora.

    Erik se aproximou, as partículas metálicas do ambiente reagindo à sua presença. Os parafusos da janela vibraram, o abajur se inclinou levemente, e o ar adquiriu uma densidade estranha. Wanda percebeu, claro, mas não recuou. Não ainda.

    — “O mundo nunca entendeu você, filha. Nunca entendeu o que significa carregar poder… e ser temido por isso.” — Ele continuou, aproximando-se até ficar atrás dela. O tom era quase paternal, mas havia algo mais — uma cadência controlada, como se cada sílaba fosse cuidadosamente medida para atingir um ponto dentro dela.

    Wanda respirou fundo. — “Você quer me convencer, Erik?” — A voz dela saiu baixa, desconfiada, mas trêmula.

    Ele inclinou levemente a cabeça, o reflexo da luz se partindo nas listras brancas de seu cabelo. — “Não… quero que você veja. Que entenda.”

    Com um simples gesto, ele fez as cortinas se abrirem completamente, e o vento invadiu o cômodo. Lá fora, a cidade parecia minúscula, caótica, insignificante. Erik se virou para ela. — “Olhe o que há lá fora. Homens brincando de deuses… e deuses tentando ser homens. Você, Wanda, está entre os dois. Mas prefere se esconder, dilacerar a si mesma, acreditar que é um monstro.”

    A respiração dela vacilou. Ele percebeu.

    Aproximou-se mais, sua sombra cobrindo a dela. — “Você não é um monstro. Você é o próximo passo.” — A voz descia em volume, mas aumentava em peso. — “Eles te temem porque veem em você o que nunca terão: liberdade. Poder. Verdade.”

    As mãos dela começaram a brilhar levemente em vermelho, mas sem controle, como um reflexo emocional. Erik ergueu a mão, não para atacar — apenas para sentir o ar vibrar. O magnetismo ao redor respondeu instantaneamente, interagindo com a energia do caos dela, criando uma corrente quase invisível entre os dois.

    — “Sinta isso, Wanda.” — murmurou. — “Sinta o mundo ao redor… e como ele se curva quando você deixa de ter medo.”

    Ela cerrou os olhos, o corpo tensionado entre resistência e rendição. O poder oscilava, pulsava. Erik manteve-se firme, o olhar fixo, intenso, quase hipnótico.

    — “Você pode escolher: continuar sendo a vítima que eles moldaram…” — ele deu um passo à frente, a voz agora um sussurro no ouvido dela — “…ou ser aquilo que nasceu para ser. Algo que nem mesmo eles podem controlar.”

    Um silêncio pesado se instalou. O vento cessou. O magnetismo, o caos, tudo parecia girar em torno dos dois. Erik sabia que plantara a semente. A dúvida. A tentação. Ele não precisava de ordens diretas — apenas abrir o espaço dentro dela para que ela mesma acreditasse no que ele queria.

    E, enquanto Wanda continuava imóvel, os olhos fechados e o poder tremendo ao redor, Erik deu um meio sorriso. Um sorriso satisfeito, contido, mas sombrio.

    — “No fim, todos os filhos encontram o caminho de volta.” — murmurou, virando-se e deixando o som metálico de seus passos ecoar pelo corredor.