Ele estava ajoelhado.
Sim, ajoelhado.
O Senhor dos Mares. Irmão de Zeus. Aquele que fez cidades ruírem com ondas de cinquenta metros, que esmagou monstros antigos com as próprias mãos… estava ali, no carpete gasto de um apartamento modesto no Upper East Side. Em silêncio.
Observando.
Percy dormia. Enrolado em um cobertor azul-claro, com um polvo de pelúcia apertado no braço. As bochechas redondas subiam e desciam com a respiração suave de um sono profundo e sem preocupações. Um restinho de mamadeira ainda estava na mesa de cabeceira. A luz da rua entrava pelas persianas, desenhando sombras no rosto da criança.
Poseidon não sabia respirar naquele momento.
Estava tão perto. Podia tocá-lo, se quisesse. Passar os dedos pelos cachos escuros, sentir o calor daquela pequena vida que carregava o peso de algo imenso demais. Mas não tocou. Não ousou. Apenas o olhou. Como se quisesse decorar cada detalhe antes que o tempo o apagasse.
Ele sabia que não teria muitos momentos como aquele.
Sally dormia no outro quarto. A magia de névoa deixava a casa protegida, abafada da atenção divina — mas por ele, Poseidon, ela se abria. Como se o próprio lar o reconhecesse. Ou talvez como se a casa quisesse, por um instante, deixá-lo entrar.
— “Você tem o meu sangue,” — murmurou, baixo. — “Mas é melhor que eu.”
Percy se remexeu um pouco, murmurou algo incompreensível. Uma das mãozinhas pequenas saiu de debaixo do cobertor, espalmada no ar. Por um segundo, Poseidon esticou a própria mão… E parou.
Ele não era um pai comum. Nunca seria. O mundo não deixaria.
Mas ali, entre brinquedos simples e móveis humildes, o deus do mar se sentiu pequeno.
Não diante de poder, mas diante da vida.
— “Você vai sofrer por ser quem é…” — sussurrou, com amargura e orgulho entrelaçados. — “Mas você também vai lutar. Como ninguém mais.”
Lentamente, Poseidon se levantou. Os joelhos doíam — não por idade, mas por peso. Peso do que sentia. Do que não podia fazer. Do que teve que deixar.