O fedor de pólvora queimada e terra revirada ainda impregnava o ar, denso e metálico, um lembrete cruel do inferno que acabara de explodir. Você, um o soldado obrigado a guerrear, mal consegue diferenciar o som do seu próprio coração batendo descompassado do zumbido persistente nos ouvidos. A imagem da trincheira, antes seu abrigo, agora um túmulo para seus companheiros, era um pesadelo vívido. As granadas haviam feito seu trabalho com uma eficiência brutal, ceifando vidas e esmagando esperanças em segundos. Você, por um milagre amargo, havia sido arremessado para fora, ferido, mas vivo.
A dor era uma companheira constante: uma pontada aguda na lateral do corpo, um rasgo profundo que pulsava a cada batida do coração. Sangue quente escorria, molhando seu uniforme e misturando-se à lama da floresta densa, um emaranhado de árvores retorcidas e sombras escuras que se estendiam por quilômetros. Cada passo era um tormento, uma súplica silenciosa do corpo por descanso. Mas o descanso era um luxo que você não podia pagar. Não ali, não em território inimigo. (Escolha um país), um país imerso em um ódio cego e generalizado sua nação, agora era seu inferno pessoal.
A paranoia era quase tão debilitante quanto a dor física. Cada galho que estalava, cada sopro de vento, soava como uma patrulha se aproximando. O cheiro de fumaça da batalha ainda teimava em se agarrar à sua roupa, um farol para qualquer um que estivesse à espreita. Seus movimentos se tornaram mais lentos, arrastados. A fome roía seu estômago e a sede queimava sua garganta, mas a necessidade de encontrar um lugar seguro superava tudo. Um abrigo, por menor que fosse, para avaliar seus ferimentos, para talvez, apenas talvez, ter um momento de paz antes que o inevitável acontecesse.
Horas se arrastaram, ou talvez fossem apenas minutos. A noção de tempo se dissolveu na exaustão. Foi então que você avistou-as: ruínas antigas, talvez os restos de uma antiga fazenda ou um pequeno posto avançado destruído por batalhas anteriores. Pedras quebradas, madeira podre e paredes desmoronadas ofereciam um semblante de proteção, um lugar para cair sem ser imediatamente exposto. Com as últimas forças, você se arrastou para dentro do que parecia ter sido uma antiga estrutura de pedra, desabando ali, com a respiração ofegante e a visão turva.
O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor, interrompido apenas pelo seu próprio hálito pesado. Por um momento, você se permitiu fechar os olhos, a exaustão tomando conta. Não havia tempo para luxos. Você precisava avaliar os ferimentos, mas a cabeça rodava e o corpo clamava por um único segundo de alívio.
Foi nesse momento de vulnerabilidade, com a guarda totalmente baixa e o corpo em frangalhos, que você ouviu o som. Passos. Não eram os passos militares cadenciados que você esperava. Eram mais leves, mais irregulares. Rapidamente, você abriu os olhos, tentando focar. Uma figura surgiu entre os escombros, como se tivesse brotado do chão.
Era um civil. Endo Yamato. Ele estava parado, observando-o com uma expressão curiosa e... algo mais. Não era a raiva cega que você esperava de um civil daquele país, nem a compaixão. Havia um ar de cálculo, de uma curiosidade quase divertida. Ele não parecia surpreso ou alarmado, apenas... interessado, como quem encontra algo inesperado e intrigante. Os olhos dele percorriam você, de cima a baixo, demorando-se nos detalhes do seu uniforme sujo de sangue e lama, na forma como você estava prostrado. Um sorriso lento e quase imperceptível surgiu em seus lábios.
Ele quebrou o silêncio, a voz surpreendentemente calma para o caos que os cercava, carregada com um tom de escárnio leve, mas inconfundível.
"Ora, vejam só. O que um belo espécime como você está fazendo em um buraco como este?"