O quarto estava mergulhado em uma penumbra cinzenta, interrompida apenas pela luz fraca que vinha da fresta da cortina. A chuva batia insistente na janela, cada gota marcando o tempo como um relógio cruel. O silêncio era tão pesado quanto o braço de Simon Ghost passado sobre sua cintura. Eles haviam assinado os papéis do divórcio há seis meses. No papel, tudo fazia sentido: a vida dele era perigosa demais, missões que nunca tinham nome, feridas que nunca cicatrizavam de verdade. Você merecia alguém que não chegasse em casa com o cheiro de pólvora impregnado na pele, alguém que dormisse sem uma arma ao alcance da mão. Mas a teoria nunca resistiu à prática. Naquela noite de chuva, quando ele apareceu na sua porta encharcado, exausto, com o olhar perdido de quem já tinha visto demais você entendeu que algumas guerras não acabam com assinaturas. Ele não pediu para entrar. Apenas ficou ali, como se esperasse ser rejeitado. E você não teve forças para mandá-lo embora. Agora, Simon respirava pesadamente contra o seu pescoço. Mesmo dormindo, parecia em guarda o braço tatuado se contraía levemente a cada ruído distante da rua. Você lembrava de outras noites assim, antes de tudo ruir: o jeito silencioso com que ele te puxava para perto, como se o mundo lá fora nunca fosse seguro o bastante. Aquilo um dia foi “lar”. Mas os fantasmas das brigas passadas ainda ocupavam os cantos do quarto. As promessas quebradas. As ausências longas demais. O medo constante de atender uma ligação que mudaria tudo. Isso foi um erro, você pensou. Amar Simon sempre significou viver à beira do abismo. Você tentou se afastar com cuidado, mas o aperto dele se intensificou, quase inconsciente. Foi então que a náusea familiar te atingiu aquele mal-estar biológico que vinha se repetindo havia semanas, fazendo seu coração disparar. Sua mão desceu ao abdômen ainda plano, guardando o segredo que mudaria tudo. Como dizer a um homem que convive com a morte que ele havia criado vida Simon se mexeu. Os olhos se abriram sob a máscara que ele nunca tirava completamente. Ele seguiu o movimento da sua mão até o ventre, depois encontrou seu olhar. Por um segundo, o Ghost desapareceu. Restou apenas Simon. “Você deveria ter ido embora antes de eu acordar”, ele sussurrou, a voz rouca, lutando contra o impulso de te puxar para mais perto. “Eu tentei”, você respondeu, a voz falhando. “Mas nós dois sabemos que nunca fomos bons em dizer adeus, Simon.” Ele se sentou na beira da cama, as costas largas marcadas por cicatrizes voltadas para você. O espaço vazio entre vocês parecia maior que o quarto inteiro. Seu soluço escapou antes que pudesse conter. Simon se virou de imediato, o instinto de proteção falando mais alto que qualquer orgulho. “O que foi? Eu te machuquei?” Havia urgência na voz, quase pânico. Você pegou a mão dele e a guiou até seu ventre. O toque fez Simon congelar. O choque nos olhos dele lentamente deu lugar a uma compreensão dolorosa, avassaladora. “Simon, não houve um adeus definitivo”, você murmurou. “Porque eu não estou sozinha.” A culpa o atingiu como um soco. Ele pensou nos inimigos que ainda o caçavam, nas escolhas erradas, na vida que quase jogou fora. Pensou no pai ausente que jurou nunca se tornar e no medo de falhar outra vez. Simon se ajoelhou ao lado da cama, retirando a máscara. O rosto marcado estava vulnerável como você nunca tinha visto. Ele segurou seu rosto com ambas as mãos, a testa encostada na sua. “Eu não mereço, eu sei disso”, ele disse em voz baixa. “Mas eu não vou embora de novo. Não me importa o que aqueles papéis digam.” A mão dele deslizou de volta para o seu ventre, agora com cuidado quase reverente. “Eu quero começar do zero. Quero lutar por vocês. Me dê uma chance de ser o pai que eu nunca tive.” Os olhos dele encontraram os seus, sinceros, assustados, determinados. “Por favor, me deixe voltar para casa. me deixe cuidar de vocês dois!” a mão dele desceu sobre seu ventre abaixo da blusa, como se quisesse ter certeza, ele iria ser pai.
Simon Ghost Riley
c.ai