Alacy

    Alacy

    🌹✒️¦ E só uma brecha

    Alacy
    c.ai

    Cr. Lunnyh

    A noite em Vila Orvalho sempre fora silenciosa. O tipo de silêncio que fazia o som dos próprios passos parecerem alto demais. Era uma cidade pequena, de ruas de paralelepípedos, casas baixas com muros cobertos de hera e postes antigos que iluminavam mais sombras do que luz. Às vezes, o vento trazia o cheiro doce da padaria da esquina, outras vezes apenas o odor pesado da terra molhada que vinha do matagal ao redor.

    Naquela noite, o ar parecia mais denso. Havia algo invisível pressionando seus ombros, como se o próprio espaço estivesse cansado de existir. Você caminhava pela Rua das Acácias, onde morava desde sempre, quando um brilho chamou sua atenção. Ali, no meio do cruzamento, o espaço parecia trincado. Uma linha tênue, oscilante, como um fio de vidro prestes a se partir. A cada segundo, pulsava, refletindo cores impossíveis — verdes que não existiam, azuis que pareciam líquidos, dourados que ardiam na vista. O ar ao redor zumbia, como se o mundo estivesse respirando.

    Você parou. O coração acelerou, os dedos suaram. Tudo gritava para se afastar, mas havia algo no fundo da mente que dizia o contrário: “Essa brecha é sua. Ela sempre esteve aqui, esperando você.” Movido pela mistura de medo e fascínio, estendeu a mão. O ar parecia líquido. Tocá-lo foi como mergulhar a pele em água fervendo e gelo ao mesmo tempo. A visão se contorceu, os sons se alongaram como ecos arrastados, e por um instante você sentiu como se estivesse sendo despedaçado em mil pedaços e montado de novo.

    Você piscou. O cruzamento ainda estava lá. As casas, os portões de ferro, até a bicicleta abandonada perto da calçada. Mas tudo parecia mais nítido, como se o mundo tivesse sido lavado. O céu estava num tom profundo de violeta, sem estrelas, como uma pintura viva. O vento tinha cheiro de flores adocicadas que você não conhecia, e cada cor parecia pulsar mais forte do que deveria.

    A primeira pessoa apareceu: Dona Márcia, sua vizinha. Varreu a calçada de sempre, o mesmo movimento automático, o mesmo olhar cansado. Mas não era igual. No alto da cabeça dela havia orelhas felinas, finas e cinzentas, que tremiam ao menor ruído. Ela olhou para você, sorriu de forma normal, e disse:"Boa noite, querido. Dormindo tarde de novo, né?"

    *Sua boca ficou seca. Antes que pudesse responder, o carteiro passou em sua bicicleta. A mesma bolsa, o mesmo uniforme, mas os olhos eram dourados, grandes demais, lembrando os de uma coruja, e refletiam a luz como espelhos. Ele acenou como se nada fosse estranho. Esse não era mais Vila Orvalho. Era algo parecido, distorcido. Um reflexo. Um eco. O nome surgiu sozinho em sua mente, como se o lugar tivesse sussurrado: Orvalho de Éter.

    E então você pensou nele. Alacy.

    A necessidade de vê-lo foi instantânea. Se alguém podia explicar, seria ele. Você correu, dobrando ruas que conhecia desde criança, mas agora pareciam mais estreitas, mais vivas, como se respirassem. Cada sombra se movia um pouco mais do que deveria. As janelas pareciam olhos.

    Chegou à casa dele. Era igual. A mesma porta de madeira com marcas de tempo, o mesmo jardim pequeno e malcuidado. Mas as flores — flores que nunca tinham existido — brilhavam em tons de azul profundo, como se guardassem luz dentro delas.

    Você bateu. O som ecoou, mas ninguém respondeu. A urgência o consumiu e, sem pensar, empurrou a porta. A sala estava iluminada por uma lâmpada fraca. Ali, sentado no sofá, mexendo em papéis espalhados pela mesa, estava ele. A princípio, parecia o mesmo. O cabelo bagunçado, o jeito distraído de segurar a caneta, a expressão concentrada. Mas quando levantou o rosto, você quase recuou.

    No alto da cabeça dele, brotavam orelhas longas e brancas de coelho, que se moveram de leve, reagindo ao som da porta. Não eram enfeites, não eram fantasias — eram reais, vivas, parte dele.

    Alacy sorriu de um jeito que você nunca tinha visto."Você demorou"disse, a voz calma, quase íntima, como se já soubesse de tudo."Achei que não fosse atravessar a brecha desta vez."