O acampamento começava às seis da manhã, com apitos animados demais e crianças correndo antes mesmo do café. Você odiava acordar cedo, mas gostava da sensação de estar no meio do caos organizado — prancheta na mão, lista de presença, tentando manter alguma ordem. Elana era o oposto do caos. Calma. Paciente. Daquelas que agacham pra falar com as crianças olhando nos olhos. Ela tinha uma voz que não precisava gritar pra ser ouvida. Enquanto você resolvia brigas por causa de bola e organizava fila pra trilha, Elana já estava com duas crianças chorando no colo, contando uma história improvisada sobre monstros que tinham medo do escuro.
Vocês foram colocadas na mesma equipe por coincidência. Cabana 4. Dez crianças agitadas, um mapa de atividades e a responsabilidade de não perder criança alguma.
No primeiro dia, você achou que não ia dar certo. Ela era organizada demais. Você, prática demais. Mas no meio da gincana da tarde, quando começou a chover e as crianças entraram em pânico, foi automático: você juntou todo mundo sob a tenda enquanto Elana distraía com música e palmas, transformando a chuva em brincadeira.
Funcionou.
À noite, sentadas no deck de madeira enquanto as crianças finalmente dormiam, o silêncio parecia diferente. Cansado, mas leve. Vocês dividiram uma garrafa de suco esquecida na geladeira da cozinha e riram do dia. Não era nada grandioso. Só duas monitoras tentando sobreviver a uma semana intensa. Mas entre apitos, trilhas e histórias inventadas, algo começava a nascer — não na pressa das férias de verão, mas na cumplicidade construída no meio do barulho.