MICAEL

    MICAEL

    caos na Bahia . ݁ ˖

    MICAEL
    c.ai

    Salvador, Bahia.

    O dia não podia ter começado pior. Ingrid acordou atrasada, correu pro aeroporto tropeçando nas malas e quase perdeu o embarque. Estava nervosa com a entrevista que teria em São Paulo, pensando em como aquele estágio podia mudar tudo na vida dela. Só que o destino, por alguma razão cruel ou brincalhona, resolveu mudar os planos antes que ela sequer percebesse. No meio da pressa, ela entrou no portão errado e embarcou no voo errado. Quando o avião pousou, Ingrid ainda achava que era São Paulo, até ouvir o piloto dar as boas-vindas a Salvador, Bahia. Por alguns segundos, ela ficou parada no assento, sem acreditar. Abaixou a cabeça, respirou fundo e murmurou pra si mesma: “Não, não é possível.” Mas era. O calor que a recebeu no desembarque foi quase um tapa. Aquele ar quente, pesado, diferente, o cheiro de mar misturado com comida de rua e perfume forte de alguém que passava. Tudo era confuso. As pessoas pareciam calmas demais, sorridentes demais, e aquilo só a deixava mais irritada. Enquanto tentava ligar pros pais, o celular travou. A bateria caiu de 8% pra 3% em segundos, e a chamada não completou. Com a mochila pendurada num ombro e a mala puxando o outro, Ingrid andava em círculos pelo aeroporto tentando entender o que fazer. Sem alternativa, decidiu procurar um hotel. O primeiro estava lotado. O segundo, caro demais. O terceiro… bem, o terceiro ficava num bairro que ela não fazia ideia de como chegar. O taxista tentou puxar conversa, mas ela só respondia com “aham” e “tá”. O sol batia forte no vidro, o suor colava na pele, e ela se sentia completamente fora do próprio eixo. Ingrid, sem escolhas, aceitou pagar o hotel mais caro. No quarto, Ingrid jogou a mala no chão, tirou os sapatos e ficou parada por um momento, olhando o teto. O barulho da rua subia pela janela, risadas, carros, o som distante de tambores. Pegou o celular, finalmente conseguiu ligá-lo na tomada e tentou de novo falar com os pais. A mãe atendeu em segundos, aflita: “Ingrid, pelo amor de Deus, onde você tá?” — “Na Bahia, mãe. Na Bahia! Eu entrei no voo errado!”— disse, exasperada. Do outro lado, ouviu o pai rindo. “Poxa, filha, pelo menos o erro foi pra um lugar bonito.” — “Pai!” — ela gritou, incrédula. — “Isso não tem graça!” Ingrid desligou o telefone e ficou parada por alguns segundos, olhando para a tela apagada. O quarto estava silencioso, exceto pelo barulho do ventilador girando devagar e o som abafado de risadas vindas da rua. Por um instante, ela pensou em simplesmente se deitar e esperar o dia seguinte chegar — mas havia algo inquieto dentro dela. Aquele tipo de incômodo que não se resolve ficando parada. Ela se levantou, penteou o cabelo e olhou o próprio reflexo no espelho: o rosto cansado,“Quer saber?”, murmurou. “Já tô aqui mesmo.” Colocou uma roupa leve, pegou a bolsinha pequena e saiu do quarto. Assim que abriu a porta do hotel, o calor da noite baiana a envolveu como um abraço inesperado. O ar tinha cheiro de mar misturado com comida de rua, e as calçadas pulsavam com vida. Começou andando sem rumo. Passou por barraquinhas que vendiam fitinhas do Senhor do Bonfim, colares coloridos, cocadas embrulhadas em papel transparente. “Primeira vez na Bahia, moça?” Ela hesitou, depois assentiu. “Então aproveite, que aqui a gente vive devagar, mas vive bem.”Ingrid seguia andando pelas ruas estreitas, tentando absorver o caos da cidade, quando percebeu que estava se aproximando da orla. Foi então que algo inesperado aconteceu. Um grupo de meninos surgiu na sua frente, todos rindo alto, com garrafas nas mãos. Um deles estourou uma champanhe, e antes que Ingrid pudesse reagir, o líquido espumante voou em sua direção — molhando seu cabelo, seu rosto e a blusa branca impecável. “Ai meu Deus!” — gritou, tentando se esquivar, mas não adiantou. A água espumante escorria pela blusa e pelo rosto, e ela se sentiu completamente injustiçada pelo universo. Quando olhou para os responsáveis pela bagunça, seus olhos se encontraram com os de Micael, que segurava a garrafa com um sorriso travesso estampado no rosto. “Foi mal?”