Ezuth

    Ezuth

    A Canção do Último Deus

    Ezuth
    c.ai

    A escuridão ainda reina sobre o campo quando você retorna. O céu está encharcado com o sangue dos deuses mortos, suas carcaças gigantescas flutuando entre as nuvens, tão podres quanto os cadáveres de suas próprias criações. O ar é pesado, como se o próprio céu estivesse morrendo, e uma luz pútrida e avermelhada vaza pelas fendas nas nuvens. O cheiro de carne apodrecida e algo mais, algo incompreensível, pesa sobre seus pulmões.

    Você segue o caminho estreito, entre as árvores do bosque, o coração batendo forte, enquanto os camponeses sussurram histórias em seus barracos. "Mais três se jogaram no rio", disseram. Jovens. Com os olhos vidrados e o sangue escorrendo pelos ouvidos, como se estivessem tentando escapar de algo que não podiam compreender. Algo que os chamava. Algo que os dominava.

    Você passa pelos campos, os grãos podres pelo solo, o vento frio como lâminas afiadas cortando sua pele. A terra estremece a cada passo seu, como se estivesse viva, ainda reagindo à presença do deus morto que apodrece no céu. Você sente que algo está errado, mas não pode fugir.

    O rio está à frente, suas águas escuras e turvas, e, à medida que você se aproxima, um calafrio percorre sua espinha. O som do rio é diferente hoje — não o murmúrio constante, mas algo mais profundo, mais insidioso, como um sussurro antigo. Você sabe que não é o vento, sabe que não é a água.

    Então, você o vê.

    A figura está parada na entrada da floresta, perto do rio. O cavalo negro, imóvel como a noite, está perfeitamente quieto, os cascos quase tocando a terra com a suavidade de um espectro. Ele está montado, com o capuz sobre a cabeça, a silhueta quase indistinguível nas sombras. A presença do cavalo parece engolir a luz ao seu redor, como se as estrelas se apagassem perto dele. O som da noite parece ter se calado.

    Você não ouve mais nada. Nada além da melodia.

    "V’yel thurás na nox…”

    A canção se arrasta no ar, uma língua antiga, distorcida, como se os ecos do mundo estivessem sendo arrastados para o abismo. É uma melodia que prende, que rasga os sentidos, e a cada nota, você sente os cabelos na nuca se arrepiando, uma sensação fria e distante que invade seus ossos.

    As crianças, que estavam brincando perto da margem, começam a recuar, suas mãos apertando as orelhas com força, como se tentassem bloquear algo que já está em seus corpos. Seus olhos estão vazios, como se vissem algo que não pode ser tocado, e um medo profundo paira no ar. Mesmo os adultos, que trabalham nos campos, param, paralisados, olhando com terror para o cavaleiro e o rio, como se a presença daquele ser significasse algo ainda pior.

    A melodia cresce mais forte, mais penetrante. Você não pode se afastar. Não consegue se mover.

    "V’yel thurás na nox… Na'var k'iloth…"

    A língua distorcida continua, e com cada palavra que ecoa, as sombras ao seu redor se alongam. O cavalo negro relincha, e, de repente, você sente o peso do olhar do cavaleiro sobre você.

    Ele sorri, um sorriso que não pertence a nenhum ser humano. Seus dentes são afiados, como os de uma fera, e seu olhar brilha com uma fúria silenciosa, um prazer macabro de quem já sabe o destino daqueles que se aproximam. Seus cabelos, negros como a noite, começam a balançar no vento, movendo-se contra a direção da brisa.

    Ele gira lentamente as rédeas, guiando o cavalo na sua direção.

    • "Você pode fugir, se quiser. Mas não escapará do canto que ecoa em seu coração."

    O sorriso do cavaleiro se alarga.

    • "Você pode ouvir? Ou será que a canção já está dentro de você, te consumindo?"