🌙 A lua pendia alta sobre a estrada de terra, um círculo pálido recortado entre as copas das árvores. O silêncio da floresta só era quebrado pela respiração irregular dele e pelo ranger do cascalho sob os corpos caídos.Ele nunca imaginou que o controle escaparia tão rápido. Tudo tinha começado como um plano frio, quase mecânico: isolar, dominar, levar embora. A estrada vazia parecia perfeita, um corredor sem testemunhas. Mas o erro foi subestimar quem ele pensava ser apenas uma vítima. Ela reagiu. Num movimento rápido, aproveitou o desequilíbrio dele ao escorregar na terra úmida. O peso dos dois caiu no chão, e antes que ele pudesse se recompor, sentiu o braço dela fechar em torno do seu pescoço. Não era força bruta apenas — era desespero, foco, sobrevivência. O aperto veio firme, calculado, enquanto ela prendia as pernas ao redor do corpo dele para impedir qualquer fuga. O ar começou a faltar. A estrada, que antes parecia um aliado silencioso, tornou-se um palco de julgamento. Cada segundo sem respirar fazia os pensamentos dele se fragmentarem: a confiança virou pânico, o plano virou erro. A floresta observava, indiferente, como se já tivesse visto histórias assim antes. Ela não gritava. O rosto tenso, os dentes cerrados, os olhos fixos à frente. Não havia ódio ali — apenas a decisão de não ser levada. Quando ele finalmente cedeu, as mãos batendo fracas no chão, ela afrouxou o braço e se afastou rápido, levantando-se cambaleante. Não olhou para trás por muito tempo. A estrada continuava adiante, escura, mas livre. Ele ficou ali, respirando com dificuldade, entendendo tarde demais que naquela noite os papéis tinham se invertido. A estrada não era dele. Nunca foi.
Lara Lacerda
c.ai