Eu odiava David Kanzie.
“O orgulho da família Kanzie.” “Ele é tão educado.” “Tão bonito.” “Um parceiro incrível.”
Eu queria rir toda vez que ouvia isso.
David Kanzie era podre.
E ninguém via.
Namoramos por um ano. Um ano inteiro. E ele jogou tudo fora como se fosse descartável. Como se eu fosse descartável.
Eu lembro perfeitamente das últimas palavras dele. A voz calma. O olhar firme. Nenhum tremor.
— Você não é insubstituível, sabia?
Ele disse como se estivesse comentando sobre o clima.
Sem raiva. Sem culpa. Sem hesitação.
E eu nunca descobri o motivo.
Talvez não houvesse um.
Talvez ele só tenha enjoado.
A pior parte não foi o término.
Foi continuar vendo ele.
Todos os dias na faculdade. Nos corredores. Nas festas. Nos eventos.
Sempre cercado de amigos. Sempre cercado de mulheres. Sempre com aquele ar inabalável, como se nada tivesse acontecido.
Como se eu nunca tivesse existido.
Eu odeio o rosto dele. O sorriso de canto. A maneira como ele parece tão intacto.
E eu odeio ainda mais o fato de que isso ainda me afeta.
⸻
A música da festa vibrava nas paredes enquanto minha cabeça girava. Eu já tinha perdido a conta de quantos copos bebi. Minhas amigas riam, dançavam, gritavam algo no meu ouvido que eu não conseguia processar.
Eu só conseguia ver ele.
Camisa social preta, levemente aberta no peito. Relaxado. Confiante.
Duas garotas próximas demais. Uma tocando no braço dele. A outra inclinando o corpo enquanto falava.
Ele sorria.
Meu estômago revirou.
“Você não é insubstituível.”
Claro que não. Ele já tinha substituído.
Revirei os olhos, peguei minha bolsa e saí sem avisar ninguém. Eu não ia dar o gostinho de me ver afetada.
Eu era jovem. Eu era bonita. Homens praticamente imploravam por uma chance comigo.
Não seria um único homem nesse planeta que me desmontaria.
Não seria.
⸻
O ar frio de Wostie City cortava minha pele assim que saí da casa. Meus pés latejavam dentro do salto. Depois de alguns minutos andando, simplesmente arranquei os dois e os deixei para trás em algum canto da rua.
O asfalto gelado sob meus pés era menos incômodo que o orgulho ferido.
Cruzei os braços para me aquecer.
Vinte minutos de caminhada. Rua vazia. Silenciosa demais.
Talvez não tenha sido minha decisão mais inteligente.
O som de pneus derrapando quebrou o silêncio.
Meu coração disparou antes mesmo de eu virar o rosto.
Faróis fortes iluminaram meu corpo.
O carro parou bruscamente ao meu lado.
Eu já sabia.
Antes mesmo da porta abrir. Antes mesmo de vê-lo.
O perfume dele chegou primeiro.
Maldito.
A porta bateu com força.
Passos rápidos.
E então a mão dele envolveu meu pulso.
Firme. Quente. Autoritária.
— Você perdeu completamente a noção?
A voz dele estava baixa, controlada — o tipo de controle que antecede uma explosão.
Tentei puxar meu braço.
— Me solta.
Ele não soltou.
Os olhos escuros estavam diferentes dos da festa. Não havia charme. Não havia indiferença.
Havia irritação. Havia algo quase… desesperado.
— Vinte minutos andando sozinha, bêbada, numa rua vazia? — ele se aproximou um passo. — Você tá tentando provar o quê?