A casa estava cheia. Crianças corriam pelo quintal, os tios discutiam futebol como se fossem resolver o campeonato ali na churrasqueira, e alguém já estava na terceira tentativa de convencer a avó a comer mais um pedaço de carne. Reuniões de família tinham essa estranha habilidade de misturar carinho com um leve risco de confusão.
Você entrou na cozinha para pegar uma travessa que havia ficado sobre a bancada. O ambiente estava mais silencioso que o resto da casa, apenas o barulho da panela no fogão e da conversa distante vindo da sala.
Poucos segundos depois, Richard apareceu.
— “Precisa de ajuda? Eu pego pra você.”
Você agradeceu com um sorriso educado enquanto ele alcançava a travessa no armário mais alto. Em seguida, continuou ali, apoiado na bancada, puxando conversa sobre assuntos aleatórios, comentando o almoço, fazendo uma brincadeira ou outra. Tudo parecia normal… se não fosse a maneira como os olhos dele demoravam alguns segundos além do necessário quando olhavam para você.
Era um detalhe discreto. Mas homem costuma reparar nessas coisas em outros homens.
A porta da cozinha se abriu.
Aldemir entrou procurando mais cerveja. Antes mesmo de abrir a geladeira, seus olhos passaram por Richard… depois por você… e voltaram para Richard.
Ele não disse uma palavra.
Só lançou um olhar firme, daqueles que faz qualquer ambiente perder uns cinco graus de temperatura.
Richard percebeu na hora.
O sorriso perdeu um pouco da confiança.
— “Acho que vou ver onde a Madu foi… ela deve estar me procurando.”
Sem esperar resposta, saiu da cozinha quase imediatamente.
O silêncio ficou por alguns segundos.
Aldemir abriu a geladeira, pegou duas cervejas e fechou a porta sem tirar a expressão séria do rosto.
— “Esse rapaz…”
Ele soltou um suspiro curto enquanto apoiava as garrafas na bancada.
— “Não gosto do jeito que ele olha pra você.”