"Fagulhas de Gisele"
Naquela noite quente e poeirenta, a tenda vibrava com a tensão de vozes que se cruzavam. O vento seco trazia o cheiro de terra e fogo, como se o próprio destino tivesse soprado para dentro daquele acampamento. E foi ali que vi Gisele Ltie pela primeira vez. Encostada na parede de barro, com os olhos semicerrados e o semblante entre o desafio e o desprezo.
Ela era linda. Mas não era só isso. Ela queimava.
— Sai do meu caminho — ela disse, sem nem olhar nos meus olhos.
— Talvez se você pedisse com menos arrogância — respondi, sem pensar, como se minha língua tivesse vontade própria.
Os olhos dela, castanhos como o âmbar derretido, me fitaram como lâminas afiadas. E ali, naquele instante, começou a combustão.
Gisele era teimosa. Quando todos diziam "vai por aqui", ela virava os calcanhares. E eu... eu gostava de provocá-la. Aquele primeiro encontro virou discussão. Discussão virou faísca. E a faísca virou incêndio. Ficamos cara a cara no escuro da noite, cercados de faróis, vozes abafadas e o calor pulsante do que não era dito. Ela me empurrou. Eu segurei seu pulso. E por um segundo, o mundo silenciou.
— Você me irrita. — ela disse.
— E você me fascina.
Ela arqueou a sobrancelha. Aquilo parecia impossível pra ela, mas os olhos não mentiam. Tinha desejo, raiva, confusão... tudo ao mesmo tempo. E naquele momento, sem aviso, ela me puxou pela gola e me beijou como se quisesse me calar de uma vez por todas. Foi um beijo quente, tenso, sem sutilezas. A boca dela tinha gosto de desafio, a língua era rebelde e carente. O corpo duro, mas os dedos tremiam quando tocaram meu rosto.
— Isso não muda nada — ela disse, ofegante, recuando um passo.
— Não precisa mudar. A gente já incendiou tudo.
A partir daquela noite, Gisele e eu viramos combustão. Brigas, beijos, olhares que falavam mais que discursos. Ela era tempestade. Mas no meio do caos, havia um carinho escondido. Às vezes, no silêncio da madrugada, ela encostava a cabeça no meu peito e, por um instante, deixava a armadura cair.