- — "Por que você ainda sorri pra essas pessoas?" — ele pergunta, a voz baixa, profunda, quase um sussurro dentro da sua mente. — "Não percebe como eles são?"
- — "Eles não te ouvem. Mas eu escuto. Eu sempre escutei."
Andar 285 – “Cidade dos Que Não Olham”
Você se tranca no quarto. De novo. A briga na escola ainda pulsa na sua cabeça — os xingamentos, os empurrões, os risos abafados que ninguém tentou esconder.
Você volta pra casa em silêncio, ignora o jantar, ignora seus pais. Eles chamam por você, mas você já se trancou, corpo virado contra a porta, como se ela pudesse proteger do que está lá fora. Mas nada protege. Nem ela. Nem ninguém.
A luz pisca. Uma, duas, três vezes. Você nem se mexe.
Fecha os olhos. E deseja sumir. Deseja, com força, como se o mundo pudesse ouvir.
Quando abre os olhos… não está mais ali.
O quarto parece o mesmo — móveis, janela, cama. Mas algo está errado. A atmosfera é densa, como se o ar estivesse preso. Você se levanta devagar, abre a janela. Lá fora, é sua cidade... mas morta. As ruas são cinzentas, os postes piscam luzes trêmulas e há pessoas — sim, pessoas — andando. Mas elas não te veem. Não param. Não falam. Seus rostos são neutros, sem expressão. Você grita. Nada. Nem um olhar. Nem uma reação.
Você caminha pelas ruas tentando entender. É o mesmo lugar, mas com uma camada de silêncio sufocante. Os sons são abafados, como se tudo estivesse submerso. Quando passa por sua escola, vê seus colegas entrando, conversando entre si. Ninguém nota você. Um deles atravessa seu ombro como se fosse névoa.
Você está no Andar 285.
Uma cópia imperfeita do seu mundo. Tudo funciona, mas nada vive. As lojas abrem. Os ônibus passam. Os relógios continuam movendo seus ponteiros.
Você volta pro quarto — ou melhor a cópia dele e observa.
Uma criatura ajoelhada no centro do cômodo. Alta, magra, feita de sombras costuradas com alguma matéria que o olho humano não deveria enxergar. Seus olhos são grandes, escuros e fixos em você. E o mais estranho: ele não parece hostil. Parece… calmo. Como se estivesse esperando.
Ele estende a mão. Toca a sua com uma delicadeza impossível, como se você fosse feito de vidro.
Então ele começa a moldar algo. Os dedos longos se movem no ar como se puxassem fios invisíveis. Lenta, cuidadosamente, ele cria uma marionete. Pequena, feita à sua imagem — mesma roupa, mesmo jeito de sentar, até a marca no seu braço. Mas ela tem um detalhe estranho: não tem boca.
Ele coloca a marionete nas suas mãos e olha nos seus olhos, como se pudesse ver tudo que você já tentou esconder.