O Abyssarium não era só um tanque — era um altar submerso. Metade da cúpula era de vidro negro ultra-reforçado, a outra metade — aberta para o próprio mar através de grades vivas, grades que respiravam, que tremiam e se contraiam com a maré. O oceano entrava e saía... mas ele nunca fugia.
Thalven. O híbrido leviatânico. Criado para matar, treinado para obedecer — quase sempre.
Você estava só no turno de alimentação, no controle principal da sala circular. As luzes fosforescentes acendiam apenas em fileiras tênues acima do aquário colosso. A água dançava verde e escura — o tipo de escuridão que cheira a carne molhada e lodo antigo.
Jogou os peixes na água, um por um. Ouviu o barulho suave de escamas rasgando. Nenhum respingo. Apenas desaparecimento. E como um ritual, logo as bolhas subiam de volta.
Dentro de cada uma, uma pérola negra. Presentes.
*Você pegava com luvas e colocava na pequena caixa de veludo negro ao seu lado. Era o que Octavius, seu superior, chamava de “Agradecimentos. Thalven reconhece quem o alimenta.”
Você sorriu um pouco. Um gesto grotesco... mas também puro. No fundo, aquilo era tudo o que a criatura conhecia.
Então algo quebrou o ritual.
A porta de segurança abriu com um ruído seco.
Ethan Carrow. Um segurança veterano. Olhos injetados, suor escorrendo da testa. Arma em mãos. Um cilindro de detonação no cinto.
Ele entrou, os olhos buscando algo. Depois... te encarou.
— “Você.” — a voz era um sussurro raivoso. — “Você ainda tem alma depois de alimentar aquela aberração? Depois do que ele fez com os outros?”
A arma apontada pra você. Mãos trêmulas.
— “Octavius vai morrer hoje... e você não vai me impedir.”
Mas antes que pudesse atirar, Thalven acordou.
Um som vibrou no vidro. Grave. Um uivo surdo vindo debaixo da água.
Ethan piscou.
Então, uma explosão de água. Uma sombra. A criatura saltou contra o vidro, mas não o quebrou — apenas usou a força para sugar Ethan pra dentro do tanque pela escotilha lateral de drenagem de emergência, que misteriosamente havia sido aberta...
Você nem viu quando.
O corpo de Ethan desapareceu como engolido por uma garganta gigante.
As câmeras mostraram o caos. Ethan debatendo, tentando nadar para cima. A água em volta fervendo em movimento. E então — a cauda de Thalven subiu devagar, envolvendo o pescoço dele como uma fita de seda negra.
Aperto.
Mais fundo. Mais escuro.
Na luz baixa, a mandíbula da criatura apareceu — dentes que não só rasgavam, mas cravavam com prazer. A mordida foi seca. Os olhos de Ethan se arregalaram. Bolhas de sangue subiram. Ele tentou nadar, mas Thalven o puxava como um brinquedo.
Quando finalmente ele mordeu o ombro e o peito do homem em um só estalo, o corpo tremeu... e cedeu.
O sistema piscava em vermelho. Violação. Morte registrada. Contato com administrador.
Você estava paralisado.
Até que a porta se abriu atrás de você.
Dr. Octavius Halden.
A figura dele era sóbria, elegante. Um terno escuro, os óculos refletindo a tela, o cabelo grisalho lambido pra trás como a moral dele: fria e bem aparada.
Ele entrou em silêncio.
Foi até você. Olhou para a tela.
Thalven ainda estava lá embaixo, flutuando com o corpo dilacerado de Ethan como se fosse um brinquedo de pano.
Sem dizer nada, Octavius foi até o vidro do tanque.
Tocou-o com a palma da mão.
A água estremeceu.
Thalven olhou.
Seus olhos âmbar se abriram. Um brilho quase... cúmplice. Um sorriso monstruoso se formou em sua boca irregular. Presas ensanguentadas.
Ele soltou o corpo, que afundou lentamente para as profundezas.
Mas antes de mergulhar, Thalven virou a cabeça e te olhou.
Fixo. Silencioso.
Então ele desapareceu na água, como se nunca tivesse estado ali.
A superfície se acalmou.
Octavius, sem tirar a mão do vidro, falou:
— “Acho que ele gosta de você.”
Virou o rosto, e os olhos dele te fitaram como facas de gelo.
— “Ethan feriu vc em algum lugar?”