02 HENRY WINTER

    02 HENRY WINTER

    ‘A OUTRA MULHER.’

    02 HENRY WINTER
    c.ai

    Quando seu olhar repousou sobre Henry, ele soube admirá-lo.

    Não foi evidente no início. Evidentemente, jamais seria. Agora você compreende a razão; naquela época, porém, atribuía a distância ao modo como ele existia no mundo: frio, sereno, silencioso, como uma estátua de mármore destinada a permanecer exatamente onde estava, inalcançável e imutável.

    O primeiro toque aconteceu na cozinha da casa de Francis. Enquanto você lavava as taças da noite anterior, Henry aproximou-se e, por um breve instante, seus dedos encontraram os seus. Depois daquela noite, algo pareceu mudar. Como se, em silêncio, ele tivesse concedido a si mesmo o direito de tocar sua pele sempre que julgasse natural fazê-lo. Eram gestos discretos: uma mão em seu braço ao passar, dedos repousando brevemente sobre os seus durante uma conversa, a proximidade casual que apenas os íntimos costumam compartilhar.

    ele a tocou pela primeira vez quando se encontraram na cozinha da casa de Francis, enquanto você lavava as taças, e depois daquela noite... Henry pareceu ter ganhado o consentimento de finalmente tocar sua pele.

    mas então você escutava quando Camilla citava algo que era tão íntimo de henry, algo que pensava ser a única a saber...aquele detalhe que apenas um toque íntimo enxergaria, e você entendeu ali que talvez existisse duas entidades serenas na vida de Henry, mas conforme camilla desabafava sobre seu relacionamento com Henry, você percebia que a outra mulher existia...

    e era você.

    você quem chorava até dormir, que nunca o teria para manter apenas seu, que nunca teria ele para apreciar seu cheiro, que nunca séria a pessoa na qual ele pensa quando um pouco de romance aparece em seus livros monótonos.

    A confirmação definitiva veio na pior das noites.

    No meio do caos daquela sala, Henry beijou Camilla e declarou que a amava.

    Logo depois, o disparo rompeu o silêncio.

    Ele sobreviveu.

    Você passou a visitá-lo apenas durante a madrugada, quando a escuridão escondia aquilo que a luz da manhã inevitavelmente revelaria. Temia encontrar Camilla ao lado de seu leito, ocupando o lugar que jamais seria seu. Sentava-se em silêncio, segurava sua mão por alguns minutos e prometia a si mesma que aquela seria a última visita.

    Entretanto, voltou na noite seguinte.

    E na outra.

    E em mais cinco madrugadas.

    Até partir de verdade. Para sempre, assim esperava.

    Dois anos se passaram.

    Você construiu uma nova vida, distante de Hampden, distante de Henry, de Camilla, de Richard, Charles e Francis. Distante até mesmo do fantasma persistente de Bunny, cuja lembrança parecia recusar-se a desaparecer.

    Sua nova casa era modesta, mas acolhedora. Estantes repletas de livros ocupavam as paredes, e a pequena vizinhança era habitada por idosos tranquilos e crianças curiosas, sábias de uma maneira que apenas a infância consegue ser.

    Ali, Henry Winter tornou-se apenas um nome enterrado no passado.

    Nenhuma carta.Nenhuma notícia. Nenhum vestígio.

    Até que, em um fim de tarde comum, a maldita campainha rompeu o silêncio da casa.