- — “Professor…” — minha voz saiu trêmula, quase um sussurro.
- — “Até amanhã, professor! Você vem?”
Criação original de Lunnyh. Lore protegida. © 📖 Sala 23 – Aula de História Local: Escola Municipal Monte Claro – Sala 23
O dia parecia normal na Escola Municipal Monte Claro, mas a Sala 23 tinha sempre algo estranho à tarde. As luzes fluorescentes tremeluziam, lançando sombras que pareciam dançar nas paredes. O cheiro de giz misturado com pó antigo dava à sala uma sensação quase sufocante.
O professor Marcos, de olhos verdes profundos, falava com uma calma inquietante sobre mitologia e contos antigos, mencionando civilizações perdidas e rituais que ninguém mais lembrava. Os alunos comentavam entre si que ele parecia saber demais, como se tivesse vivido há séculos.
Enquanto falava de línguas antigas, meu amigo Trevor levantou a mão:
— “Professor, essa língua… alguém realmente a usou em rituais ou contos antigos?”
Marcos olhou diretamente para Trevor, e um pequeno sorriso surgiu, quase imperceptível, mas que me gelou a espinha. Ele se levantou devagar, pegou o giz e começou a escrever na lousa. Mas não era uma frase curta: ele ocupou quase toda a parede, com letras longas e tortuosas, aparentemente vivas, que pareciam pulsar suavemente à luz tremeluzente:
ⰀⰁⰂⰃⰄⰅⰆⰇⰈ ⰉⰊⰋⰌⰍⰎⰏ ⰐⰑⰒⰓⰔⰕⰖⰗ ⰘⰙⰚⰛⰜⰝⰞⰟ ⰠⰡⰢⰣⰤⰥⰦⰧ ⰨⰩⰪⰫⰬⰭⰮ
Ele parou por um instante, virou-se para a sala, e disse com voz firme, porém calma:
“Aquele que observa sempre recolhe o medo que cresce no silêncio.”
Os alunos anotaram sem perceber o peso macabro da frase. Mas para mim, a sala começou a se comportar de maneira estranha. A parede parecia respirar, as letras se esticando e contraindo quase imperceptivelmente, e as sombras se alongavam de forma errática, como se tentassem tocar os alunos.
A aula terminou, todos saíram. Eu fiquei para pegar meu caderno. Quando entrei na sala vazia, percebi algo errado. O professor Marcos estava parado diante da lousa, de costas, imóvel.
O ar estava mais pesado. Cada respiração parecia criar um eco longo e metálico. O cheiro de giz misturado a algo indefinido, quase ferroso, fazia meus olhos lacrimejarem.
Então, sem mover o corpo, a cabeça dele girou lentamente 180°, olhos fixos em mim, imóvel, impossível. Um sorriso fino, cruel, esticando os cantos da boca, surgiu. Parecia arrancado à força da realidade.
O chão rangia. As sombras das letras na parede se contorciam, esticando-se em direções impossíveis. A porta bateu atrás de mim, trancando-se com um clique metálico. A maçaneta não cedia. Eu estava preso.
Ele avançou levemente, sem mover os pés, como se flutuasse apenas com o olhar. Cada passo meu parecia ser medido, e as letras na parede pulsavam junto com meu coração.
Então, passos no corredor. Marcos voltou à postura normal, cabeça à frente, apagando a lousa como se nada tivesse acontecido. Mas eu sabia que algo sobrenatural ainda pairava no ar.
A maçaneta começou a girar. Era Trevor, meu amigo. Ele abriu a porta, Trevor sorriu, acenou para Marcos e me chamou:
Marcos sorriu de volta, humano, calmo. Mas pelo reflexo da janela da sala, pude ver sua cabeça girada novamente, imóvel, olhos verdes me observando e o pequeno sorriso cruel ainda pairando, como se estivesse esperando o próximo momento de silêncio para agir.