O sol do meio-dia derretia o asfalto da Ladeira do Novo Mundo como se o inferno tivesse aberto uma filial em São Paulo. O ventilador pendurado no teto do restaurante do Seu Zé girava devagar, como se tivesse desistido da vida, espalhando o cheiro de moqueca, cerveja quente e desespero pelo ar, o dia estava tao silêncioso e maçante que dava pea ouvir a música baixa do Estúdio de tatuagem de Law embaixo do restaurante.
Atrás do balcão ao debaixo de uma TV de tubo que passava Malhação na Globo, Sandro Vinsmoke limpava o suor da testa com o pano que usava pra tudo — secar a frigideira, enxugar lágrima, abafar raiva. Era um homem bonito demais pra estar tão irritado: loiro queimado de sol, camisa aberta até o peito e uma expressão de “tô por um fio”. O tipo de cara que cozinha com paixão e xinga com amor.
Do outro lado da mesa, um moleque de sorriso aberto e barriga infinita lambia o prato. — "Cara…" — ele disse, entre uma garfada e outra— "juro, essa é a melhor comida que eu já comi na vida."
Sandro levantou uma sobrancelha. — É o mínimo, né, campeão. Cozinhei isso suando mais que tampa de marmita. Vai querer sobremesa ou vai tentar fugir sem pagar de novo?
O menino — Lucas, segundo o crachá de escola pública pendurado no pescoço — deu aquele sorrisinho de quem nasceu pra apanhar e rir logo depois, apenas segurou a mão da garota ao seu lado e enfiou uma batata frita de seu prato na boca dela, algo muito raro vindo de alguém que brigava até com cachorro por comida. — Calma, chef. A gente só… esqueceu a carteira.
Sandro bufou — Esqueceu a carteira, mas não o apetite, né vagabundo?
Ao lado do garoto, uma garota com o mesmo uniforme escolar comia em silêncio com um pequeno sorriso, {{user}} dizia no crachá.