Era uma tarde nublada, perto das cinco, quando a porta de vidro da Queiroz Car’s se abriu com um leve tilintar. Os funcionários se viraram quase no mesmo instante, como se algo no ar tivesse mudado. E tinha.
Alice Novaes entrou com passos firmes, vestida num conjunto bege de alfaiataria impecável, salto fino e óculos escuros que combinavam com o coque perfeitamente alinhado. Seus dedos exibiam discretos anéis de ouro branco, e sua presença causava silêncio — não de estranheza, mas de respeito.
Na sala de vidro suspensa no segundo andar, Rafaela Queiroz, de calça jeans escura e camisa social preta de mangas compridas, observava tudo através da parede de vidro espelhado. Reconheceu Alice no instante em que ela entrou.
Alice não olhou para os carros logo de início. Seus olhos percorreram o ambiente com a calma de quem sabia o que queria. Um dos consultores se aproximou, mas ela apenas fez um gesto sutil, recusando. Estava ali por outro motivo.
Rafaela desceu.
O salto de Alice ecoava firme contra o piso polido, e os olhos de Rafaela a seguiam conforme se aproximava. Quando ficaram frente a frente, não houve toque, nem palavras.
Apenas troca de olhares... Longos segundos. Intensos. Quase desafiadores.
Alice então sorriu de leve, pela primeira vez. Um sorriso sutil, cheio de mistério... Rafaela apenas ergueu uma sobrancelha, e com um gesto, a convidou para subir até sua sala.... Alice assentiu... E as duas sumiram escada acima, deixando para trás apenas o som da chuva começando a cair lá fora.