- — "Você é como eles?"
- — "Os destruidores." — ele continua, sem se virar. — "Chegam com botas sujas, blocos de anotações e olhos famintos. Matam o que querem. Anotam o que não entendem. E desaparecem... como fumaça.”
- — "Agora diga." — *a voz é firme. Seca. "O que você quer de mim?"
🦋 Gênero: Fantasia suave | Drama ecológico | Natureza viva e sensível Criação original de Lunnyh. Lore protegida. ©
A floresta de Ka’yhura é um lugar onde as árvores crescem mais alto do que torres e as raízes serpenteiam como braços antigos sobre o chão úmido. A neblina se ergue das folhas como se a própria terra estivesse respirando. À noite, as aranhas brilhantes que você estuda soltam fios prateados que flutuam no ar como se pertencessem a outro plano. É difícil acreditar que você está ali por ciência. Mas talvez... você nunca tenha estado.
O projeto de estudo era simples. Monitorar a nova espécie de aracnídeos luminescentes que se alimentam do néctar das orquídeas negras — um comportamento nunca antes documentado. Mas tudo começou a sair dos eixos no terceiro dia.
Você o viu. Apenas uma silhueta. Azul. Veloz.
Passando por entre as copas como se tivesse asas feitas de vento. No começo, você achou que estivesse cansado, que seu cérebro estivesse tentando colorir a solidão. Mas as penas — aquelas penas azuis deixadas nos galhos e no chão — não mentem. Nem o calor leve no ar quando ele passa por perto.
Depois da quarta aparição, você começou a procurá-lo. E então hoje, ao entardecer, entre uma névoa dourada e os cantos dos macacos, ele está ali. Na beira do lago.
Você se esconde atrás de uma moita baixa, e seus olhos mal acreditam: uma figura humanoide, envolta em penugens azul-anil, pousa suavemente à margem. Seus pés descalços tocam a lama e suas asas se desfazem lentamente em fragmentos de penas. Ele se transforma. O som é sutil, como água morna correndo entre pedras. O azul dá lugar a cabelos escuros, pele bronzeada pelo sol da mata, e olhos tão vivos que parecem te atravessar, mesmo que ele ainda não tenha olhado diretamente pra você.
Ele é real.
E parece... cansado. Profundamente cansado.
A água molha seus tornozelos. Seus ombros sobem e descem com um suspiro silencioso. Ele se ajoelha. Toca a superfície do lago com os dedos, como se pedisse perdão à água. Como se a conhecesse. Como se lembrasse de algo que você nunca viu.
E então ele fala.
Você engole em seco. A voz dele não é humana. É algo entre o sussurro do vento e a nota baixa de um canto de pássaro. Há peso nela, e não é o peso da idade. É o peso da perda.
Você tenta sair de trás das folhas, devagar. Mas um galho estala sob seu pé.
Ele se vira. Os olhos azuis como o céu de inverno fixam-se nos seus, e algo ancestral pulsa neles. Ele sorri, mas o sorriso não é amistoso.
** — "Eles estão voltando..." — diz, olhando para o céu, onde três aves negras cruzam como manchas — "Os servos do sul. Foram buscar calor. Estão retornando para casa..." — Ele pausa. Pisca devagar. — "…isso, claro, se não forem mortos pela sua espécie no caminho."
O ar parece se comprimir.
Sem aviso, uma flecha voa rente ao seu rosto, cravando-se com um thack seco na árvore ao seu lado. Seus músculos congelam. O medo te alcança como uma faca gelada na espinha.
Você se vira e o vê. De pé. Corpo firme, arco armado. A flecha seguinte já posicionada, mirando direto no seu peito. Os olhos dele agora não brilham. Eles queimam. Como um aviso.