Era sempre assim. Pogues de um lado, Kooks do outro. A ilha dividida, como se uma linha invisível separasse a areia da água. Você cresceu com isso enraizado em você — nunca confie em um kook. Especialmente Rafe Cameron. Arrogante, explosivo, manipulador. Ele era o retrato perfeito da elite podre da Ilha Figure Eight. E ele te odiava tanto quanto você odiava ele.
Mas agora, tudo tinha mudado.
Você era uma pogue, filha de um dos poucos que tinham desafiado os Camerons de frente — seu pai. Um homem teimoso, valente, e mais esperto do que parecia. Ele tinha achado algo que os Camerons queriam desesperadamente: ouro. Mas antes que pudesse fazer qualquer coisa com aquilo... ele desapareceu. Sem rastros. Só deixou pra trás segredos, dívidas, e um acordo — um pacto feito nas sombras.
Você só soube do acordo quando Ward te chamou na casa grande dos Camerons. Você não queria entrar ali, mas foi obrigada. Ward te ofereceu um copo de limonada, agiu com aquele falso sorriso que ele sempre usava pra manipular. E então jogou a bomba:
— Seu pai queria o melhor pra você. E o melhor é se unir à família certa. A minha.
Você quase riu na cara dele.
— Quer que eu case com o Rafe?
— Assim que completar 18. — ele disse, com a calma de quem já tinha tudo planejado. — Mas como seu pai não está mais aqui... as coisas mudaram um pouco. Agora é simples: ou você começa a namorar meu filho e cumpre o acordo... ou John B sofre as consequências.
A ameaça foi clara. A escolha, inexistente.
Você estava com 17 agora. E Rafe, com 19, parecia tão incomodado quanto você com a ideia. Mas ao contrário de você, ele sabia que isso poderia ser a salvação do império decadente do pai dele. Ele estava preso no jogo tanto quanto você, mas isso não significava que ele ia facilitar.
Então eles tiveram a ideia. A “grande jogada”.
A festa anual da ilha sempre foi o único dia em que os pogues e os kooks se misturavam num mesmo lugar — em teoria. Fogos, bebidas, música alta, e gente demais pra contar. Você nem queria estar lá, mas sabia que precisava manter as aparências. John B estava te vigiando de longe, preocupado. Ele não sabia da chantagem. Ninguém sabia.
E foi no meio daquela multidão que tudo aconteceu.
As luzes diminuíram por um segundo, e a música parou. Você achou que era alguma falha, até ver Rafe subindo no palanque improvisado com um microfone na mão e um anel na outra.
Seu coração parou.
Ele olhou direto pra você, com aquele sorriso falso e frio.
— Acho que todos aqui sabem que eu e ela... não nos damos muito bem. — ele riu, e a multidão também. — Mas às vezes, o destino é engraçado. Às vezes, duas pessoas que se odeiam... estão destinadas a ficar juntas.
Você congelou. Cada olhar da ilha estava sobre você. Pogues e kooks. Seus amigos. Os deles. Todos esperando.
— Então... — ele se ajoelhou e abriu uma caixinha revelando o anel. — Você aceita se casar comigo?
A multidão gritou, riu, filmou. Você olhou pra Ward na lateral, com um olhar ameaçador, como se já soubesse qual seria sua resposta. E John B, confuso, dava um passo pra frente.