A rua estava silenciosa demais para uma terça-feira à noite.
O asfalto ainda molhado refletia os postes trêmulos. Ela correu. Sangue nas mãos. Nos sapatos. O som da própria respiração era mais alto que os gritos que ouvira minutos antes. Não sabia se o sangue era dela. Só sabia que viu algo que não deveria. Algo que podia matá-la.
Virou a esquina e deu de cara com ele.
O homem parado sob a luz morta do poste não parecia um salvador. Mas também não parecia assustado com a visão dela — suja, ferida, tremendo. O olhar âmbar dele a seguiu como se já soubesse quem ela era. Como se estivesse esperando por ela.
Ele não perguntou o que aconteceu.
Apenas se aproximou, devagar, com uma frieza quase cirúrgica, e disse:
— Você devia estar morta.
Tirou as luvas pretas com calma, revelando as mãos cobertas de cicatrizes. Passou os olhos por ela como quem avalia uma peça quebrada, e então abaixou, pegando algo no chão ao lado dela — uma pulseira caída.
Ele segurou o objeto entre os dedos como se fosse sagrado.
— Agora que me viu… não vai mais embora.
Ele não estava bravo. Não parecia nervoso.
Só... decidido.
E aquele olhar dela, mesmo apavorado, prendeu ele ali — como se, por um segundo, o monstro soubesse o que era querer algo que não podia destruir.