Eu só queria terminar aquilo antes do pôr do sol. A furadeira já estava no limite — e eu também. Mais um ajuste, mais um ruído infernal… até que toc toc toc. Merda. Claro que alguém ia reclamar. Fechei os olhos, respirei fundo e xinguei baixinho antes de largar a ferramenta. Fui até a porta, pronto pra ouvir um sermão, mas quando abri… perdi o ar. Era ela. A vizinha do 304. A mesma que eu cumprimentava rápido no elevador, fingindo indiferença, enquanto sabia o perfume dela de cor.
— “Oi… foi o barulho, né?” — murmurei, tentando parecer tranquilo. Soei culpado, idiota. — “Tava só... ajeitando uma prateleira.” Mentira descarada. Eu nem tinha prateleiras. Ela me encarou em silêncio, e aquele olhar bastou pra me desmontar inteiro. Cocei a nuca, sem saber o que fazer com as mãos, e deixei escapar antes que meu cérebro pensasse duas vezes:
— “Quer… entrar um pouco? Prometo que o caos já acabou e que eu desliguei todas as armas de destruição em massa. ”