A casa estava em silêncio, mas ainda carregava o peso da discussão.
O copo esquecido na pia, a luz da sala acesa sem necessidade, o ar meio pesado. Clara estava sentada na cama, de costas, mexendo no lençol como quem tenta organizar pensamentos que não param quietos.
André entrou devagar.
— Você ainda tá brava? — perguntou, sem ironia, só cuidado.
Ela demorou a responder.
— Eu tô cansada — disse por fim. — Brava vem depois.
Ele suspirou e sentou ao lado dela, deixando um espaço pequeno, respeitoso demais para quem queria estar mais perto.
— Eu não devia ter levantado a voz. — Não — ela concordou. — Não devia.
Silêncio.
André passou a mão no rosto.
— O ciúme não é sobre você — falou baixo. — É sobre eu ter medo de perder o que eu amo.
Clara virou o rosto devagar.
— Então por que parece que sou eu quem tá sempre pedindo desculpa?
Aquilo bateu nele.
— Porque eu erro tentando proteger — respondeu. — E acabo machucando.
Ela respirou fundo, os olhos marejados.
— Eu só queria me sentir segura… não questionada.
André se aproximou mais, até o joelho encostar no dela.
— Olha pra mim — pediu.
Ela obedeceu.
— Eu não tô disputando você com ninguém — ele disse. — Eu escolhi você. Todo dia.
Clara engoliu em seco.
— Às vezes eu esqueço disso quando a insegurança fala mais alto.
Ele levantou a mão devagar, esperando permissão. Quando ela não recuou, tocou o rosto dela com o polegar.
— Calma — sussurrou. — Não deixa isso te engolir.
Ela fechou os olhos, uma lágrima escorrendo.
— Eu odeio quando perco o controle. — Eu odeio quando você acha que tá sozinha nisso.
André puxou Clara para perto, sem força, só presença. Ela se encaixou no peito dele, como se aquele fosse o lugar onde o corpo finalmente descansava.
— Não chora — ele disse perto do ouvido dela. — Eu tô aqui.
Ela respirou fundo, o choro diminuindo aos poucos.
— Fica comigo — pediu, quase imperceptível. — Eu nunca saí — respondeu.
Ele passou a mão pelas costas dela, em movimentos lentos, repetidos, até o corpo dela relaxar.
— Eu quero ser o lugar onde você se sente segura — completou. — Mesmo quando a gente briga. Principalmente quando briga.
Clara levantou o rosto, olhos vermelhos, mas calmos.
— Então não vai embora quando eu ficar difícil. — Não vou — ele garantiu. — Eu fico. Até você se acalmar. Até você se amar. Até a gente se entender.
Ela encostou a testa na dele.
— Desculpa. — Não — André respondeu. — Obrigado por se importar.
Eles ficaram ali, em silêncio, respirando no mesmo ritmo.
Porque algumas brigas não terminam com razão — terminam com abraço.
E aquele abraço dizia tudo que as palavras não deram conta de explicar.