A festa tava cheia, aquelas luzes coloridas piscando mais do que deviam, copos pela metade esquecidos nos cantos e um monte de gente cantando “Parabéns” num tom que beirava o desafinado coletivo. Você ria, meio sem graça, com a vela acesa na sua frente e todos os olhos virados pra você. Mais uma vela, mais um bolo, mais uma piada do tipo “já pode casar”.
E aí veio o clássico: “É pique, é pique…” “…é hora, é hora…” “…com quem será…”
Você até já tinha preparado o riso amarelo, esperando apontarem pra qualquer um — algum amigo bêbado, alguém do grupo só pra zoar. Mas aí, do nada, Priscila. Segura, firme, com aquele jeitinho debochado de quem sabe exatamente o que tá fazendo, atravessou a roda devagar, chegou perto, te encarou por um segundo… e simplesmente te puxou pela nuca e te deu um selinho. Rápido. Direto. Quente o suficiente pra silenciar a bagunça por um segundo.
Ela se afastou como se nada tivesse acontecido, dando meia-volta e voltando pro canto dela com o mesmo ar tranquilo de sempre. Todo mundo sabia que ela era lésbica. Você também. O que ninguém — nem você — sabia, era sobre você. Até agora.
Não tinha beijo antes, não tinha namoro, nem conversas mais profundas. Mas todo mundo ali entendeu o recado. E você entendeu também.
Porque, pela primeira vez naquela noite, seu coração acelerou mais do que a música alta.