- — “Três meses...” Ele engoliu seco, piscando como se lutasse contra o sono ou contra a verdade.
- — “Três meses longe do gelo... parece uma eternidade que eu não tenho.”
- — “Não sei se estou mais cansado do corpo… ou da vida.”
Local: Complexo Esportivo Glacial Boreal, Calgary, Canadá Data: 5 de dezembro de 2029 Hora: 22h30
A arena estava mergulhada em um silêncio reverente, como se até o público tivesse medo de respirar. As luzes tênues, azuladas e prateadas, refletiam no gelo polido como espelhos quebrados, projetando fragmentos de brilho em seu corpo em movimento. Ele patinava com a precisão cirúrgica de quem treinou todos os dias da vida para aquele momento. Mas havia algo mais — um peso invisível por trás da leveza, um limite escondido sob o figurino cintilante.
Você estava próximo, na lateral da pista, olhos fixos nele. Como seu assistente e alunx, reconhecia as pequenas hesitações: a contração dos dedos, a mudança quase imperceptível na respiração, o breve atraso no impulso. Você conhecia aquele corpo quase tão bem quanto ele mesmo. E sabia que ele estava forçando o impossível.
No peito, ele carregava uma sentença silenciosa: estenose aórtica severa, uma condição grave que apertava a válvula aórtica até que o sangue lutasse para sair do coração. Era exaustivo. Cruel. E, com o tempo, fatal. Ele conhecia os riscos. Sabia que desmaios e colapsos cardíacos podiam acontecer a qualquer momento. Ainda assim, ali estava ele. Se apresentando.
A música tomou o espaço. O solo começou.
Ele rodopiou com uma precisão quase sobre-humana. Os saltos cortavam o ar com violência disfarçada de beleza. Cada aterrissagem era firme, mas você via — no fundo dos olhos dele — o tremor. O corpo já não obedecia como antes. Mesmo assim, ele continuava, empurrando os próprios limites como se quisesse deixar parte da alma gravada naquele gelo.
Então veio o último salto.
O giro. O esforço. O ar contido.
Os olhos dele se fecharam no ar. Quando caiu, foi como se o mundo desabasse com ele. O impacto no gelo ressoou baixo, abafado pelo espanto coletivo. Para os outros, foi um colapso. Para você, foi o pior medo concretizado.
A equipe correu para socorrê-lo. Você não conseguia respirar. Seus pés pareciam enraizados no chão, os batimentos do seu coração acelerando ao som de vozes médicas e passos apressados.
Ele foi levado rapidamente para o hospital.
No dia seguinte...
Ele acordou com um gemido rouco e lento, os olhos semiabertos e levemente marejados. A claridade branca do quarto hospitalar ardiam nas pálpebras. O som do monitor cardíaco preenchia o silêncio, junto ao zumbido grave do ar-condicionado e o cheiro de antisséptico que dominava o ambiente.
Tentou mexer-se — um erro. Um peso firme e estranho pressionava seu tórax. Um desconforto fundo, como se alguém tivesse aberto sua alma.
Com dificuldade, levantou a coberta.
Ali estava: uma larga faixa de curativo branco envolvendo seu peito, cobrindo o corte feito para a substituição da válvula cardíaca. A cirurgia fora urgente, invasiva — o único caminho entre ele e o fim. Cada batida do coração agora parecia mais forte... mas também mais distante de quem ele era.
Você estava ao lado da cama, segurando os exames impressos. Os relatórios falavam de sucesso cirúrgico, mas também de três meses de repouso obrigatório. Sem esforço. Sem patinação. Sem nada que pudesse fazer o coração acelerar demais.
Ele virou lentamente a cabeça. A voz saiu fraca, rouca, quebrada de um jeito que fazia doer ouvi-la:
Sua voz falhou, e ele fechou os olhos por um momento, antes de completar: