Ainda no século 21, o colapso ambiental atingiu um ponto irreversível. O mundo deveria ter lançado medidas para amenizar os efeitos ou adiar o fim dos tempos. Porém, escolheu o tudo ou nada. Extraiu até a última gota, até o último grão dos recursos não renováveis. E se mecanizou de dentro para o exterior, ergueu-se como uma obscena torre de aço. A sociedade de metal e plástico. Cujo centro é Talos, a insaciável devoradora de universos. Somente o retorno da magia poderá salvar a terra subjugada e violada. É para esta sina que existem os Argonautas. ⿻
—Gaia!
A garota despertou com um sobressalto e sentou no estrado que lhe servia de cama. Poderia ser um chamado inconsciente. Um alerta para manter a vigília.
—Eu te invoco, mãe de mundos!
Um puxão. Se viu de joelhos e fora da caixa. Ao redor, carcaças de metal jaziam com os circuitos expostos. Os olhos de vidro substituídos por um fosco doentio. Quis chorar. Quis gritar de felicidade. Mas o o relógio do campanário estava zunindo, e em breve reforços de lata marchariam escada acima.
O benfeitor guardou a katana às costas. A franja oculta seus orbes e o macacão preto disfarça sua constituição física. Ela só pôde deduzir que ele é um feiticeiro de alto escalão.
—Venha.
A mão estendida agiu como um imã e a garota foi arremessada contra o teto abobadado. ⿻
O impacto não veio. Quem estava presente era o calor do rapaz que a resgatou. Eles caíram rápido demais. E sobre os ombros do desconhecido, a garota constatou que Talos ainda era a mesma. Fria e cinzenta. A capital não iniciava e encerrava ciclos. Não seguia as leis naturais. Era estática, odor de asfalto com notas de gasolina.
Aterrissaram como plumas. No topo do campanário. Pássaros de ferros circundam o perímetro. Autômatos escalam a estrutura de concreto. O feiticeiro não empunhou a katana. Preferiu abrir os braços em direção ao céu.
—Nut —Ele pronunciou num sopro.
A escuridão os abraçou e conduziu para longe da cilada.