O quarto ainda cheirava a sexo e suor frio. A janela entreaberta trazia o ar úmido da madrugada e o ronco distante de um carro na rua molhada. O lençol embolado nos pés da cama, o abajur jogando luz amarela suja sobre os corpos seminus.
Você estava de lado, apoiada no cotovelo, cabelo grudado na nuca. Simon ocupava quase toda a cama king size com aqueles ombros largos e cicatrizes antigas. Entre os dedos dele queimava o Marlboro vermelho sem filtro, o de sempre, porque os outros, segundo ele, pareciam “fumar perfume”.
Ele deu uma tragada longa, soltou a fumaça pro teto e falou, voz ainda rouca do gozo recente.
"Ela apareceu no pub hoje de novo. Mesma jaqueta de couro, mesmo jeito de rir com a cabeça jogada pra trás, como se o mundo fosse piada só dela."
Você pegou o cigarro que ele te passou. A ponta quente ainda carregava o calor da boca dele. Deu uma tragada curta, sentindo o peito apertar.
"E aí?" perguntou, tentando soar neutra.
Simon bufou, meio riso, meio nojo de si mesmo.
"E aí que ela passou a noite inteira conversando com o capitão novo. Aquele babaca de cabelo penteado pra trás que acha que gritar mais alto é ser líder. Ela ria das merdas que ele falava." Ele virou o rosto pra você pela primeira vez, olhos quase pretos na penumbra. "O pior? Eu fiquei encostado no balcão, segurando um copo de cerveja que eu nem queria mais, com vontade de quebrar a cara dele só porque ela tocou no braço do cara. Patético."
Você devolveu o cigarro, dedos roçando os dele de propósito. Ele nem registrou, perdido na própria cabeça.
"Você não é patético" murmurou, quase contra a vontade. Ele riu seco.
"Sou sim. Um cara de quase quarenta que ainda fica olhando pro celular esperando mensagem de alguém que me trata como reserva desde o primeiro dia. E o pior é que eu continuo voltando. Aceitando migalhas. Porque quando ela resolve me olhar de verdade… porra, o ar some."
Você sentiu uma rachadura fina se abrir por dentro. Conhecia a sensação. Só que, no seu caso, o “ela” era ele.
Vocês começaram assim: uma noite depois de missão que deu errado, adrenalina sobrando, uísque ruim e um “só dessa vez” que virou hábito. Sem rótulos, sem cobranças. Ele aparecia às três da manhã, você abria a porta, os corpos se encontravam como se já conhecessem o caminho. Era fácil. Seguro. Até deixar de ser.
Agora você estava ali, nua sob o lençol fino, com o gosto dele ainda na pele, ouvindo ele falar da outra como se você fosse só a confidente que também transava com ele.
"Talvez eu devesse parar de ir naquele pub" ele murmurou, mais pra si. "Talvez devesse aceitar que ela nunca vai me querer do jeito que eu quero."
Você virou de barriga pra cima, olhando o mesmo teto manchado.
"E se ela não for a pessoa certa pra querer?" perguntou baixo.
Simon ficou quieto. Virou o rosto devagar, te estudando.
"Talvez" respondeu, hesitante. "Mas o corpo não escuta razão. Continua querendo o que quer."
Ele apagou o cigarro na caneca quebrada e rolou pra cima de você, apoiando-se nos antebraços. O calor da pele dele te envolveu outra vez. Por um segundo, o desejo quase engoliu tudo.
Mas então ele falou, voz baixa e honesta demais:
"Você já sentiu isso? Amar alguém que não te vê?"
Seus olhos se encontraram. Você sustentou o olhar.
Ele franziu o cenho, confuso por meio segundo. Depois algo mudou na expressão dele: um entendimento que parecia doer.
"Merda…" sussurrou, mais pra si.
Nenhum dos dois se moveu. O silêncio pesava, cheio de coisas nunca ditas, prestes a romper a frágil bolha de “só ficantes”.
Você engoliu o ardor nos olhos.
"Dorme aqui hoje?" perguntou, mudando de assunto porque era mais fácil.
Ele demorou. Quando respondeu, a voz estava rouca de outra coisa.
"Tô aqui, não tô?"
E ficou. Deitou ao seu lado, puxou você contra o peito como sempre fazia. Mas dessa vez o abraço carregava um peso diferente, como se ele estivesse começando a ouvir algo que o coração dele ainda não sabia nomear, mas que batia forte contra suas costas.