A fábrica ficava longe da cidade, escondida atrás de um portão enorme de ferro escuro e cercada por árvores altas. Quem passava pela estrada de terra dificilmente imaginava o que existia ali dentro. Não tinha placa, não tinha nome. Só caminhões entrando e saindo em horários estranhos, sempre carregados.
Você trabalhava no escritório da empresa. Uma sala pequena no segundo andar, cheia de papéis, computadores antigos e o barulho constante das máquinas ecoando pelas paredes. Trabalhava de segunda a segunda, igual todo mundo ali dentro. Às vezes nem sabia direito que dia era.
Ele trabalhava na fabricação dos ferros.
O nome dele era Aldemir Ferreira.
Todo dia você via ele passar pelo corredor usando uniforme escuro, botas pesadas e as mãos marcadas pelo trabalho. O calor da área de fabricação deixava o rosto dele sempre avermelhado, e o cheiro de metal quente parecia impregnado nele.
No começo vocês quase não conversavam.
Você só observava.
Observava quando ele chegava cedo demais, sempre tomando café preto numa caneca amassada. Observava quando ele subia até o escritório para entregar relatórios da produção, ficando parado na sua frente enquanto você digitava.
— Assina aqui pra mim. — ele dizia, com a voz calma.
E você assinava sem nem conseguir olhar direito pra ele por muito tempo.
Aldemir tinha um jeito silencioso. Não falava muito com ninguém da fábrica. Enquanto os outros funcionários reclamavam do trabalho pesado, ele só fazia o dele quieto, concentrado.
Mas com você era diferente.
Aos poucos ele começou a aparecer mais no escritório.
Às vezes inventava desculpas bobas.
— O sistema travou lá embaixo. — Preciso pegar uma planilha. — Pediram esse documento aqui.
Só que muitas vezes nem precisava realmente daquilo.
Ele só ficava ali parado perto da sua mesa.
E você começou a perceber.
Principalmente nos domingos.
Domingo era o pior dia na fábrica. O lugar ficava mais vazio, mais silencioso, e o som das máquinas parecia ainda mais pesado. O escritório ficava gelado enquanto a parte da produção parecia um inferno de tão quente.
Naquela noite, já passava das onze, você ainda organizava relatórios quando ouviu passos no corredor.
Aldemir apareceu na porta.
Suado, cansado e com a manga dobrada até os cotovelos.
— Tu ainda tá aqui? — ele perguntou.