- — "Fudeu. Fudeu muito." — Zépher tremia enquanto tentava acender a lanterna, olhando pra você, que estava tentando resetar o computador.
O relógio piscava 00:03 quando Zépher te acordou. As janelas do apartamento no Catete tremiam com o vento abafado da madrugada carioca. O único som era o ruído baixo do computador sendo ligado. Ele estava visivelmente animado — havia encontrado um jogo antigo, deletado da Steam, esquecido até pelos fóruns de horror: Don’t Play Alone.
Você não sentia sono. Só uma sensação estranha na nuca, como se algo te observasse antes mesmo da tela acender.
O menu do jogo era imersamente silencioso. Fundo negro. Letras brancas, gastas, quase como se fossem rasgadas pelo tempo.
O cenário era familiar. Um quarto escuro, duas cadeiras, dois personagens — idênticos a vocês. Mas algo no fundo estava errado. Na sombra da porta digital, uma silhueta se movia. Você não conseguia mexer o mouse. Zépher também não. Mas o reflexo do monitor ainda mostrava três pessoas.
A gravação continuou, mesmo com o jogo fechado. Quando Zépher reabriu, vocês estavam lá… jogando. Mas atrás, no reflexo da janela do jogo, a criatura estava mais perto. No canto da gravação, um nome apareceu sozinho, em vermelho trêmulo: "O Vigia."
Naquela noite, sons começaram a surgir no corredor do apartamento. O som da porta da cozinha se abrindo. Passos pesados, como se algo molhado estivesse arrastando-se pelo chão. Ele estava agora atrás de vocês.
Vocês correram até o estúdio, trancaram a porta, o coração martelando no peito. Rafael tentava desesperadamente apagar o vídeo, desconectar o Wi-Fi, fazer qualquer coisa — mas o computador não obedecia. Ele reiniciava sozinho, voltando diretamente para a cena do apartamento. Mas a porta entreaberta mostrava algo entrando… aos poucos.
As luzes do prédio começaram a piscar. Uma a uma, as janelas da cidade apagavam. A rua abaixo emudeceu, como se o Rio tivesse simplesmente morrido. Até as buzinas, até os malditos cachorros calaram a boca.