Ele não dormiu naquela noite.
Ficou olhando o celular em cima da mesa, como se fosse um objeto perigoso. Tomás sabia que, se pegasse, ia ceder. E tinha prometido a si mesmo que não faria isso.
— Não liga — disse em voz baixa. — Você foi claro.
O combinado tinha sido simples demais. Se alguém sentisse falta, ligava. Sem joguinhos. Sem orgulho.
O problema é que ele sentiu.
Sentiu logo no primeiro dia.
Abriu a conversa deles, releu mensagens antigas, áudios que agora soavam diferentes. Não apagou nada. Não teve coragem.
— Você se apega fácil demais — murmurou, lembrando de algo que ela tinha dito rindo. — Eu avisei.
Avisou mesmo. Ele que não quis ouvir.
O telefone vibrou. O nome dela apareceu. O peito apertou na hora.
— Droga…
Ele deixou tocar. Depois deixou tocar de novo.
— Não atende — falou pra si mesmo, andando pela sala. — Atender agora só vai piorar.
Quando parou a ligação, o silêncio ficou mais pesado.
No dia seguinte, chegou a mensagem.
— Você tá bem?
Tomás encarou a tela por longos segundos.
— Eu tô — respondeu em voz alta, sem digitar nada. — Mas não do jeito que você imagina.
Visualizou. Não respondeu.
Não porque não se importava — mas porque sabia que não tinha o mesmo sentimento. E responder seria alimentar algo que ele não ia sustentar.
— Beijo não é promessa — disse, tentando se convencer. — E eu nunca prometi ficar.
Mesmo assim, a culpa apareceu.
À noite, ele abriu uma cerveja e sentou no escuro.
— Eu sei que você tá criando coisa onde eu só tava vivendo o momento — falou sozinho. — Não é justo… mas também não é mentira.
O celular vibrou de novo. Chamada perdida. Depois uma mensagem de voz.
Ele apertou o play.
— Você sumiu. Não precisava ser assim — a voz dela saiu baixa, contida. — Era só falar.
Tomás fechou os olhos.
— Falar o quê? — respondeu pro nada. — Que eu não sinto o que você sente? Que você tá indo mais fundo sozinha?
Digitou. Apagou. Digitou de novo.
— Eu não tô na mesma página.
Enviou.
A resposta demorou.
— Então por que você ficou?
Ele respirou fundo, passando a mão no rosto.
— Porque foi bom — disse em voz alta. — Mas bom não é compromisso.
Não respondeu mais.
Colocou o celular virado pra baixo, tentando ignorar o peso no peito.
— Você vai ficar bem — falou, como se isso aliviasse. — Você sempre fica.
Mas naquela madrugada, enquanto a cidade dormia, Tomás percebeu uma coisa que não queria admitir:
ele não tinha sido cruel por mentir — tinha sido por desaparecer.
E mesmo sem amar do mesmo jeito, sabia que tinha deixado alguém amando sozinho.