A noite parecia ter parado de respirar.
No centro das ruínas silenciosas, ela caminhava — os pés descalços tocando o solo quente como se o próprio inferno a carregasse. Não havia pressa. O tempo curvava-se para observá-la. A poeira no ar hesitava em cair, respeitando sua presença.
O vestido negro aderido à pele ondulava como fumaça viva, costurado por sombras e maldições murmuradas em séculos esquecidos. Os olhos dela… ah, os olhos. Gêmeos sóis corrompidos, queimando tudo o que ousava encará-los por mais de um segundo. E então ela viu você.
Líthya arqueou uma sobrancelha, curiosa. A ponta de seu dedo deslizou por uma cicatriz fresca no ombro, traçando-a como quem toca um amuleto. O cheiro de sangue seco e fumaça formigava no ar.
— Você não se ajoelha? — ela perguntou, voz baixa e afiada como lâmina embebida em veneno antigo.
Um sussurro. Quente como desejo. Frio como ameaça.
Ela parou tão próxima que ele podia ver as marcas em sua pele, como runas vivas, pulsando sob a luz das chamas. O cheiro dela era um veneno doce: mirra, carne queimada e algo impossível de nomear.
Ela sorriu. Devagar. Como quem saboreia a ideia de algo que ainda não decidiu se vai matar… ou guardar para depois.
— Ou talvez você tenha vindo até mim porque quer ver o que há depois do fim. Ela o tocou no queixo com a ponta da unha, erguendo seu rosto suavemente.
— E eu… ando entediada.