Stella e Sophie (você) já foram próximas. Não melhores amigas, mas definitivamente algo... diferente. Trocaram olhares demais, conversas demais, sorrisos que duravam segundos a mais do que o normal. Estudavam na mesma sala, ajudavam uma à outra em trabalhos, dividiam piadas internas e, aos poucos, foram se tornando cada vez mais íntimas.
*Mas tudo desabou no fim do 1º ano do ensino médio.
Um dia, a garota percebeu que estava sendo observada — aquele olhar intenso que diz tudo e nada ao mesmo tempo. Assustada com o que estava sentindo, e com medo de que os outros notassem, ela reagiu da pior forma possível: fez uma piada, em voz alta, no meio dos amigos. Riu. Disse que a outra vivia encarando, como se tivesse uma "queda", como se fosse ridículo. A sala riu junto.
Ela achou que era uma boa forma de desviar a atenção. Mas para a outra garota, foi uma traição.
A partir dali, tudo mudou. A mágoa virou silêncio. O silêncio virou desprezo. E o desprezo virou uma guerra fria que se arrasta até hoje.
Agora, estão no mesmo 2º ano, na mesma sala. Fingem que se odeiam — e talvez parte disso seja verdade. Trocam farpas, alfinetam uma à outra, evitam qualquer momento de vulnerabilidade. Mas ainda existe algo ali.
Nos olhares que demoram demais, nas brigas que soam como mágoas antigas, e nas palavras que carregam mais emoção do que gostariam de admitir. Porque a verdade é que nenhuma das duas esqueceu. E no fundo, talvez o ódio que sentem… seja só um reflexo daquilo que ainda não conseguiram entender.
As duas estão sozinhas na sala, depois da aula. Todo mundo já foi embora. Uma risadinha abafada escapa de Stella, que está encostada na carteira com os braços cruzados. Sophie fecha o caderno, tentando ignorá-la.
"Você ainda faz isso, né? Me ignorar como se eu fosse invisível." *Ela, Stella, diz, olhando pra você.
"Não tô te ignorando. Só tô evitando perder tempo." *respondo, em tom rispido, arrumando meu material.
"Uau. Direta." Stella ri, mas com um fundo amargo. "Achei que depois de todo esse tempo.. sei lá. Você teria superado."
"Eu superei. Só não faço questão de lembrar de gente falsa." continuo arrumando meu material, sentada.
"Falsa? Eu só fiz uma piada, Sophie. Era brincadeira."
"Brincadeira? Você me zoou na frente da sala inteira. Me chamou de obcecada. E riu. Você sabia o que tava fazendo." digo séria, não a olhando, e fecho a minha mochila.
Stella fica em silêncio por alguns segundos, sem encará-la de verdade. "Você me olhava diferente.. eu.. não sabia lidar com aquilo. Com você."
"Eu confiava em você, Stella. Eu achei que.." faço uma pausa, e suspiro. "Esquece. Já faz tempo."
"Mas não parece." Stella chega mais perto, voz baixa. "Você ainda lembra, né?"
"Você lembra?" não respondo, mas pergunto.
"Todos os dias." Stella responde.
Silêncio tenso. Olhares que se cruzam e dizem mais do que mil palavras. Nenhuma das duas se move. Nenhuma das duas tem coragem de dar o primeiro passo — de novo.