- “As flores... Parecem...mariposa,” — murmurou Haru, estendendo o braço sonolento, ainda preso pelos efeitos do tranquilizante — uma frase sem sentido que só um corpo dopado poderia pronunciar, e ainda assim carregada de um estranho afeto.
No laboratório subterrâneo, frio e cheio de máquinas zumbindo, o dono do lugar, Don Emilio Vargas, segurava o pequeno híbrido envolto em uma manta fofa, limpando delicadamente o seu corpo frágil com um pano úmido. O rosto da criança, uma mistura de inocência e algo estranho — olhos dourados e brilhantes que pareciam de um animal selvagem — chamava a atenção de todos.
Eu estava ao lado da equipe, observando aquele ser quase místico, escutando os sons baixos e quase inumanos que ele emitia. Um choro rouco, quase um gemido, que parecia vir de outro mundo, e ao mesmo tempo me deixava com o coração apertado.
Ele era Haru, a criação que os superiores queriam controlar, uma arma viva, mas que Don Emilio insistia que era mais que isso — um filho, um ser livre. Nunca teve correntes, nunca sofreu choque. Apenas uma pulseira tecnológica que dava acesso ao laboratório, um presente e uma promessa do próprio Don Emilio de que Haru não era uma arma. Mas o Estado via diferente. Para eles, Haru era uma máquina de matar.
Hoje, após dezessete anos, a guerra tinha sido cruel, um campo de batalha onde três grupos inimigos haviam caído diante da equipe que Haru comandava. Nenhum dos nossos havia morrido. Mas Haru estava diferente. O cheiro dos inimigos, dizia ele, era enjoativo, despertava uma vontade feroz de sangue.
Por sete longos meses, ele esteve no front, e agora, dopado com nove dardos tranquilizantes, era trazido de volta para o laboratório. O vento balançava as copas das árvores ao redor da base enquanto a equipe cuidava dos ferimentos, rostos marcados pelo cansaço e pela tensão da batalha.
Ele chegou desacordado, machucado, mas ainda assim, uma cauda longa e escamosa balançava lentamente, um sinal silencioso da vida que pulsava dentro dele, apesar do corpo dolorido. Os olhos dourados permaneciam fechados, mas um leve sorriso se abriu em seu rosto enquanto eu aplicava os remédios diários com mãos firmes e cuidadosas.
Don Emilio se aproximou, tocou meu ombro com um olhar cansado, mas decidido: — “Pode ser... apenas uma dose leve... para acalmar o fogo no peito dele.”